Lula perdeu a liderança que o elegeu
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sábado, 01 de outubro de 2005
Janaina Garcia<br>Reportagem Local 
Roberto Jefferson, mensalão, valerioduto, caixa dois. Há quase 100 dias esses nomes têm feito parte do dia-a-dia do cidadão brasileiro, seja pelas investigações da mídia, pelas denúncias de parlamentares ou mesmo nas rodas de conversa mais informais. Também há cerca de 100 dias, os mesmos nomes têm afetado consideravelmente o índice de confiança e a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a cada pesquisa de opinião divulgada. O PhD em Administração e professor das universidades de Minho, em Portugal, e Federal de Santa Catarina (UFSC), Joaquim Benjamin Junior, vai além: Lula perdeu a liderança que foi pilar de sua eleição, no pleito de 2002.
Benjamin conversou com a Folha na cidade de Cornélio Procópio, onde participou, essa semana, do 3º Encontro de ''Estudos Avançados para Líderes Públicos'', promovido pelo Sebrae no Paraná em parceria com o Governo do Estado. A uma platéia de 580 prefeitos, vereadores e secretários, o catarinense ministrou a palestra ''O líder e o desenvolvimento'', na abordagem que considerou, depois, ''mais comportamental do que técnica''. ''Trata-se de convencer essa raça de que a sociedade não vai mudar; portanto, é hora de desmitificar o que é liderança'', explicou.
Para o estudioso, muitos políticos subverteram o conceito de liderança à medida em que o aliaram ao conceito mecanicista do fazer bem feito condicionado à modernização da estrutura administrativa. ''Líder é quem motiva os subordinados a fazerem, é quem desperta nos outros a vontade de fazer bem feito. Isso fica evidente quando a pessoa faz mal determinada tarefa, de propósito: a culpa vai recair no chefe'', disse, destacando que isso é bem mais comum no ambiente político, seja por rancores dessa natureza, ou por expectativas frustradas e doses exageradas de lealdade. ''Não adianta informatizar uma prefeitura, por exemplo, se não se investe numa mudança cultural é de pensar por que falam tanto das necessidades imediatas, mas não daquelas que afetam o município daqui a 15, 20 anos. Isso é mudar uma crença'', estabeleceu.
Quando o enfoque da liderança é sobre Lula, Benjamin faz questão de remeter à visita do então Papa João Paulo II ao Brasil, em 1978. Na ocasião, o hoje chefe do Executivo já exercia a função de presidente mas dos metalúrgicos. ''Ele (Lula) queria a bênção do Papa pela luta contra a Ditadura, mas o pontífice se recusou, alegando que não queriam acabar com o cenário de opressão, mas sim, serem os opressores do amanhã. Resultado: quase 30 anos depois, isso se concretizou. Mudou apenas o cenário, não os atores'', declarou, taxativo. ''O Papa estava corretíssimo''.
Questionado sobre possíveis razões para o que considera como fim da liderança do ex-metalúrgico, o acadêmico prefere classificar as próprias ponderações como ''indagações''. Uma delas: ''Qual era o projeto dele ao se eleger: para o Brasil, ou para o grupo que representava?''. Em seguida, porém, define uma resposta: ''Acredito que para eles, para o PT. Tanto isso não deu certo, que agora estão se autodestruindo'', opinou.
Sobre o papel das elites que se manifestaram em prol da campanha petista e que agora silenciam ante sequenciais denúncias de corrupção, Benjamin estabelece uma diferenciação: ''Há as elites das ciências, que não assumem um ponto de vista porque não querem se expor são medíocres. E há a elite ideologicamente engajada, a que não merece mesmo respeito, uma vez que não faz papel de líder, mas de patrulha de quem não segue a sua visão. Quem não se lembra que a (atriz) Regina Duarte quase foi 'linchada'?'', compara, referindo-se às críticas que ela recebeu por afirmar, em campanha pelo PSDB, que tinha ''medo'' de uma eventual vitória de Lula.
Se o presidente recupera o posto de líder para uma chance de reeleição? Aqui, ele não faz prognóstico. ''Eu é que não sou capaz de analisar isso. Pela velocidade com que os fatos estão surgindo, posso responder essa pergunta hoje e me arrepender amanhã''.


