Brasília - Em mais uma tentativa de evitar novo racha na base aliada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) jogou água na fogueira petista. Nas conversas mantidas com governadores e dirigentes do PT, na semana passada, ele fez um apelo: pediu esforço concentrado para desidratar a resolução política do 3.º Congresso do partido, marcado para começará na sexta-feira, e não incluir no texto a defesa veemente da candidatura própria à sua sucessão, em 2010. Lembrou que o gesto indicaria boa vontade para o diálogo.
''É importante que o PT esteja disposto a conversar com os outros partidos'', disse Lula. A referência a um candidato à sucessão presidencial é amena na proposta apresentada pelo antigo Campo Majoritário, mas todas as demais correntes abordam o tema como um dos grandes desafios para o projeto de poder da legenda e não estão dispostas a ceder. O argumento é que o PT precisa, pela primeira vez em seus 27 anos, preparar-se para o pós-Lula, fustigando o PSDB e o DEM.
O timing dessa operação embute mais uma divergência entre o presidente e o PT. A lista de contenciosos inclui vários senões: das desavenças sobre os rumos da política econômica ao espaço ocupado no governo, passando por propostas de reformas defendidas pelo Planalto e combatidas pelo partido, como a da Previdência.
Os chamegos de Lula na direção do ex-ministro e hoje deputado Ciro Gomes (PSB-CE) e do governador de Minas, Aécio Neves (PSDB) - dois potenciais concorrentes ao Palácio do Planalto -, também causam ciumeira nas fileiras petistas e desconforto no PMDB, o principal parceiro da coalizão.
''Temos de manter a regra da boa convivência nas eleições municipais para não prejudicar a coalizão nacional'', insistiu o deputado Michel Temer (SP), presidente do PMDB. ''Se depender de mim, a proposta de candidatura própria em 2010 não aparecerá na resolução do Congresso'', emendou o deputado Ricardo Berzoini (SP), presidente do PT. ''A antecipação desse debate não ajuda em nada, até porque a conjuntura é sempre muito dinâmica.''
O assunto promete esquentar as discussões. As tendências Articulação de Esquerda e Novo Rumo propõem que o documento do 3.º Congresso carregue nas tintas e mencione com todas as letras a necessidade de o PT fazer ''oposição vigorosa'' aos governadores tucanos Aécio e José Serra, de São Paulo. Os dois são pré-candidatos do PSDB à presidência.
''A inexistência de uma candidatura natural, como foi a de Lula (...), imporá ao partido um esforço extra para manter unificadas as forças 'governistas', bem como para construir um nome petista à Presidência'', destaca o texto da Articulação de Esquerda. ''Tendo em vista que os dois principais pré-candidatos oposicionistas são Serra e Aécio, fazer-lhes oposição programática vigorosa é uma das condições exigidas para o sucesso da nossa empreitada.''
A defesa da oposição aos governadores tucanos já estava expressa em outro documento do PT, aprovado pela Executiva Nacional há quatro meses, mas o Planalto trabalha agora para que esse tópico não conste da resolução do Congresso, que vai até 2 de setembro.
Não é à toa que o texto do antigo Campo Majoritário já é bem mais ameno. Apesar de defender a continuidade dos ''oito anos de transformação do País'', o documento dessa ala -que conquistou 51% dos 931 delegados ao encontro - não dá nome aos bois. Diz apenas que as eleições municipais serão ''um momento delicado'', em que as ''forças conservadoras'' atacarão o PT.
A corrente Movimento PT, liderada pelo presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (SP), também vai nessa direção, mas avalia que o encontro precisa começar a preparar terreno para a candidatura própria em 2010. ''É um desejo de mais de 90% do diretório nacional'', resume Romênio Pereira, secretário de Organização do partido.
Mais enfático, o deputado Jilmar Tatto (SP), da facção PT de Luta e de Massas, diz que o partido deve ter ''cara própria'' no segundo mandato do presidente. ''Lula usa o PT para aprovar coisas ruins, como a prorrogação da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira). Mas, nos momentos de crise, quem defende o PT?'', pergunta. ''Precisamos salvar o PT quando o governo acabar. Não podemos viver como correia de transmissão do Planalto.''

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