Lula nega crise e busca acordo com Morales
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quarta-feira, 03 de maio de 2006
Pedro Dias Leite e Eduardo Scolese<br>Folhapress 
Brasília - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apoiou ontem a decisão do boliviano Evo Morales de nacionalizar as reservas de gás de seu país e disse que não existe nenhuma crise entre os dois países. Lula afirmou que os preços não vão subir, chegou a fazer uma brincadeira dizendo que não iria descobrir uma arma na Bolívia para brigar com o vizinho e classificou de erro estratégico o Brasil ficar dependente de uma única fonte de energia que não é nossa.
A construção do gasoduto foi acertada em agosto de 1992, ainda no governo de Fernando Collor de Mello, e o contrato para a construção foi assinado em setembro de 1996, na gestão de Fernando Henrique Cardoso, segundo informações da Petrobras. Nós estamos vendo a imprensa brasileira falar da crise Brasil-Bolívia, não tem crise Brasil-Bolívia. E não existe a crise. Existirá um ajuste necessário de um povo sofrido e que tem o direito de reivindicar ter maior poder sobre a maior riqueza que tem, disse Lula, muito aplaudido pelas cerca de 300 pessoas, de 35 países, na abertura da 16ªReunião Regional das Américas da OIT (Organização Internacional do Trabalho).
À tarde, Lula disse que a coisa é mais tranqüila do que se possa imaginar. A avaliação foi feita a donos de jornais, depois da assinatura de uma declaração de apoio à liberdade de imprensa. Em seguida, em entrevista, afirmou que não vai aumentar o preço do gás.
A decisão de Morales obriga a Petrobras, que já investiu US$ 1,5 bilhão no país, a vender o controle acionário de suas refinarias ao governo boliviano e eleva os impostos de 50% para 82%. Se não aceitar, será forçada a deixar o país em um prazo de 180 dias. A estatal brasileira já decidiu recorrer à Justiça dos EUA.
Mas Lula evitou qualquer atrito com Morales e até ironizou a situação. Não vamos descobrir uma arma qualquer na Bolívia para justificar uma briga com a Bolívia não, disse, no evento pela manhã, para risos da platéia. Foi uma menção à invasão do Iraque pelos EUA. O governo George W. Bush usou como justificativa para a guerra a existência de armas de destruição em massa no Iraque, mas depois ficou provado que não existiam. Minutos depois da crítica a Bush, Lula lembrou que mantém ótimo relacionamento com o atual presidente dos EUA.
Lula afirmou ainda que vai decidir o impasse com os bolivianos por meio de negociação, sem confronto. Eu faço política, eu aprendi a negociar muito antes de ser político, e as divergências nossas serão tiradas em torno de uma mesa, conversando, disse.
Hoje, Lula tem uma reunião em Puerto Iguazu (Argentina) com Morales e os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e da Argentina, Néstor Kirchner. O fato de os bolivianos terem direitos não significa negar os direitos do Brasil. O que não pode é uma nação tentar impor sua soberania sobre as outras, sem levar em conta que o resultado final da democracia é o equilíbrio entre as partes, disse Lula.
No dia anterior, em nota, o governo brasileiro já tinha dito que reconhece a nacionalização como ato inerente à sobe-rania da Bolívia e lembrava que o Brasil, como manda sua Constituição, exerce pleno controle sobre as riquezas do seu próprio subsolo.


