Brasília - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva será um dos protagonistas, amanhã, em Cuzco, no Peru, da criação da Comunidade Sul-americana de Nações, projeto assentado no acordo de livre comércio entre o Mercosul e o bloco andino, mas voltado também para o diálogo político e a integração de infra-estrutura entre os 12 países envolvidos. De acordo com o chefe do Departamento da América do Sul do Itamaraty, Enio Cordeiro, trata-se de uma proposta com mais de dez anos, que ganhou substância a partir do encontro entre Lula e o presidente da Argentina, Nestor Kirchner, em março deste ano. A Comunidade Sul-americana, entretanto, nasce sobre três frágeis pilares.
Depois de oito anos de negociação, o acordo entre o Mercosul e a Comunidade Andina de Nações (CAN) prevê a liberalização completa das trocas de bens entre os dois blocos apenas dentro de mais de 20 anos e não alcança 80% dos produtos comercializados - um piso sugerido nas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). Faltará ainda acordos com a Guiana e o Suriname que, na visão do Itamaraty, podem ser conquistados de forma mais ambiciosa, a partir de negociações do Mercosul e dos andinos com o bloco caribenho, o Caricom.
Outro pilar da Comunidade, o Mercosul, amarga um processo de debilitação de sua zona de livre comércio pelas cotas aplicadas pela Argentina às importações de produtos brasileiros e um questionamento sobre sua ambição de consolidar-se como uma união aduaneira - o processo de integração mais profundo, que prevê a unificação das tarifas de importação e da política comercial.
No terceiro pilar, o Brasil se vê diante de sua própria dificuldade e a de seus vizinhos em conseguir meios para o financiamento das obras de interligação de transportes, de energia e de telecomunicações por conta de seus orçamentos ajustados a metas e das restrições ao endividamento. Esse deverá ser o principal eixo a ser trabalhado pela Comunidade, segundo Cordeiro, por sua capacidade de alavancar negócios e comércio entre os países. O ''nó górdio'' a ser trabalhado, em seu ponto de vista, será os mecanismos de financiamento dessas obras.

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