Brasília - Apareceu um novo trunfo no baralho eleitoral de 2006 a carta racial. De olho numa fatia que representa 48% do eleitorado, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva entra na campanha da reeleição com um pacote de medidas que podem lhe dar o voto da população negra. ''A eleição de 2006 será diferente da campanha de 2002'', afirma o deputado Luiz Alberto (PT-BA), presidente da Frente Parlamentar pela Igualdade Racial. Há quatro anos Lula foi atrás da elite e dos mercados. ''Em 2006 a campanha será popular, o que inclui a defesa mais explícita da população negra.''
As ações do governo Lula envolvem programas de saúde, alimentação e até proteção de terreiros de candomblé. A população negra representa dois terços dos beneficiários do Bolsa Família. O mais luxuoso troféu nessa direção foi lançado na semana passada, quando a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara aprovou projeto que define o regime de cotas para as universidades federais. Trata-se de proposta que radicaliza para pior as iniciativas anteriores.
Antes, pensava-se em reservar 20% das vagas para as cotas. O projeto aprovado eleva essa fatia para 50%, repartidas entre alunos de escolas públicas e negros. As cotas também passam a valer para cursos de pós-graduação e se tornam compulsórias em todos os cursos. Hoje, uma universidade com um número maior de estudantes negros num curso de Letras, por exemplo, pode compensar uma quantidade menor em Medicina. Agora, toda faculdade deve reservar metade das vagas para o regime de cotas.
Caso o projeto seja aprovado, será uma grande bandeira eleitoral. Caso a discussão se prolongue para 2007, a campanha do PT pode pedir votos para Lula para garantir as cotas. A idéia das cotas tem por trás a noção de que alguns brasileiros devem ser forçados a abrir mão de direitos legítimos, conquistados por mérito ninguém entra em faculdade pública porque tem pai rico em função de erros cometidos ao longo da história do País. Faz sentido? Numa argumentação brilhante, o juiz Anthony Scallia, da Suprema Corte americana, lembra que ninguém pode ser chamado a responder, individualmente, por enganos cometidos por gerações anteriores.
''O que me irrita é ouvir que o sistema vai beneficiar os pobres'', diz o professor Carlos Fonseca Brandão, autor de ''As cotas na universidade pública brasileira: será este o caminho?''. Brandão lembra que ''as cotas não vão chegar aos miseráveis, que nem sonham com uma faculdade, mas vão ajudar a classe média que estava chegando lá por conta própria''.

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