Nagóia, Japão - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva experimentou ontem o primeiro corpo-a-corpo da campanha eleitoral de 2006 na distante Nagóia, cidade industrial que abriga a maior concentração de brasileiros no Japão, de cerca de 34 mil pessoas, a maioria alheia à crise política detonada pela denúncia de corrupção nos Correios. Lula carregou e beijou crianças, cumprimentou os dekasseguis ávidos por atenção, distribuiu autógrafos, posou para fotografias, experimentou pão de queijo e empadinhas e prometeu soluções para os dilemas nas áreas de educação e de saúde dos brasileiros. Na mesma sintonia, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, foi popular e afável e distribuiu tantos beijos e apertos de mão quanto seu chefe.
Assim como nos cinco dias anteriores de sua viagem ao Oriente, o presidente claramente privou-se ontem da hipótese de ser abordado pela imprensa brasileira sobre temas políticos internos. Manteve-se blindado. Com isso, preservou o conteúdo da viagem à Coréia e ao Japão, cujos objetivos se concentraram na atração de investimentos e no estímulo ao comércio. Por outro lado, protegeu sua própria imagem do desgaste de ingressar no bate-boca político em torno de um escândalo de corrupção e da incapacidade do governo em proteger suas posições no Congresso. Apesar dos apelos e das investidas dos jornalistas, Lula deixou Nagóia, por volta das 17h30 (5h30, horário de Brasília), sem disparar uma única declaração direta sobre a CPI dos Correios que, em seu próprio ponto de vista, teria antecipado a corrida eleitoral de 2006.
O presidente desembarcou em Nagóia por volta das 9h45 de sábado (21h45 de sexta-feira, no horário de Brasília). Imediatamente, visitou o espaço ''Praça Brasil'', no mesmo prédio onde está o consulado brasileiro e que conta com cerca de oito lojas destinadas à solução de problemas cotidianos da comunidade. Recebido por cerca de 30 brasileiros na porta, Lula ouviu a choradeira dos que reclamam da jornada de trabalho longa no Japão, do atendimento médico-hospitalar, das doenças.
''Trabalho feito um jumento na Suzuki'', afirmou Francisco Freitas, que cochichou no ouvido de Lula que havia participado na coleta de recursos para suas campanhas, nos anos 1980. ''Tive um acidente de moto no ano passado, colocaram oito pinos na minha perna, 25 centímetros de placas. Eu preciso de um especialista em ortopedia'', clamava incessantemente Moacir Araújo Gonçalves, 31 anos, prontamente abraçado por Lula que, diante do relato dos implantes de metais, passou a chamá-lo de ''metalúrgico''.
No consulado, Lula conversou com diretores de escolas brasileiras no Japão - entre as quais está o colégio Pitágoras, de cujo conselho administrativo o ministro do Turismo, Walfrido Mares Guia, é o presidente. Os professores entregaram propostas ''mastigadas'' ao presidente sobre uma política educacional para os brasileiros que vivem no país, segundo o ministro. A apoteose do encontro com a comunidade brasileira - e o momento mais tumultuado - foi sua visita a uma feira de negócios e serviços brasileiros no Japão, a 3 Expobusiness, com 90 expositores dos dois países.
Ali, o presidente aproveitou-se da ansiedade de milhares de brasileiros para rememorar uma eficaz prática eleitoral, o corpo-a-corpo. Deixou-se fotografar carregando crianças como Leonardo Kikuchi Câmara, de 7 anos, e Damaris Cristine Rodrigues, de 9 anos. ''Eu só conhecia ele pela televisão'', afirmou Leonardo, que não dormira a noite anterior na expectativa de ver o presidente.
Por fim, discursou como nos seus melhores tempos de palanque. Prometeu acordos com o governo japonês nas áreas de saúde e educação, de forma a garantir aos brasileiros no Japão tratamento similar aos dos japoneses no Brasil, e o reconhecimento de diplomas para o exercício de profissões. ''Meu desejo é que um dia vocês possam regressar ao Brasil com possibilidade de conseguir empresa e de levar a vida com dignidade'', arrematou.

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