Brasília - Além da derrota inesperada, com a rejeição da medida provisória que mandava fechar as casas de bingo de todo o País, a falta de articulação política do governo no Senado causou outros prejuízos graves ao Palácio do Planalto e à sua base de apoio no Congresso. O painel eletrônico de votação não registrou, mas na semana passada o governo amargou o agravamento do racha interno no PMDB, da disputa dentro do PT e da crise entre Câmara e Senado. E como se não bastasse, ainda viu subir a temperatura da briga de poder dentro do próprio Planalto, com o confronto entre os ministros José Dirceu (Casa Civil) e Aldo Rebelo (Coordenação Política).
O acirramento dos ânimos no Congresso e nos gabinetes palacianos aconteceu no embalo das negociações em torno da proposta de emenda constitucional (PEC) que permite a reeleição dos presidentes da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP), e do Senado, José Sarney (PMDB-AP). A emenda divide o Planalto, o PT e o PMDB do líder no Senado, Renan Calheiros (AL), que trabalha para suceder Sarney com o apoio da bancada de senadores do PT. É neste clima político instável que o governo terá de negociar a aprovação do salário mínimo de R$ 260.
Não será tarefa fácil. ''Eu não posso levar minha bancada a fazer de novo o papel de madrasta do povo na Câmara, para o Senado dar uma de vovó boazinha e fazer política às custas dos deputados, aprovando um aumento generoso do mínimo'', avisa o presidente do PTB, deputado Roberto Jefferson (RJ). Foi o que ele próprio disse ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva na quinta-feira, aproveitando a reunião de estréia do conselho político da República.
''A desarticulação do governo está provocando instabilidade no Senado e é esta crise que está no centro de tudo'', insiste Jefferson, para quem o resultado da votação da MP dos bingos no Senado apenas deu visibilidade maior aos problemas que já existiam. Líderes de todos os partidos se queixam do comportamento do Senado, que tem feito concessões em medidas austeras que os deputados aprovaram a pedido do governo.
Jefferson lembra que, no conselho político, o presidente Lula concordou que a situação política do governo no Senado está realmente ''muito difícil''. Segundo o presidente do PTB, Lula disse que irá se dedicar mais à relação com Senado e que atribui as dificuldades à oposição renhida da bancada de senadores do PSDB.
No vai-e-vém do governo em torno da PEC da reeleição, tem crescido no Planalto e no PT a corrente dos que avaliam que o melhor para Lula neste momento seria a retirada da emenda. Só isto, argumentam os defensores desta tese, evitaria o racha inconveniente do PMDB e a longa disputa entre os partidários de Renan e Sarney, que ameaça arrastar o governo.
O próprio Renan já avisou que irá ''até o fim'' em sua batalha contra o casuísmo da reeleição. E segundo ele, o fim não se dará com a votação da emenda no Senado, prevista para o início de novembro, mas com a escolha do candidato da bancada. ''Se quem estiver melhor na bancada for o Sarney, o candidato será ele'', diz Renan, para completar: ''Mas pode ser um tertius (um terceiro nome que surgir do impasse).''
Com a experiência de quem foi ministro de Fernando Henrique Cardoso e participa hoje da executiva nacional do PMDB, o deputado Eliseu Padilha (RS) admite que o governo passado jogou no racha do PMDB, mas adverte: a administração petista não pode se dar a este luxo porque não tem maioria consolidada no partido como teve FHC. Se o PMDB rachar realmente, diz Padilha, o governo corre o risco de ficar com a menor fatia.

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