Lula encerra cúpula com críticas a Kirchner
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sexta-feira, 30 de setembro de 2005
Folhapress 
Brasília - Assim como já havia ocorrido em maio passado durante a Cúpula América do Sul-Países Árabes, o presidente argentino, Néstor Kirchner, deixou ontem de forma antecipada a Primeira Reunião de Chefes de Estado da Comunidade Sul-Americana de Nações, contribuindo ainda mais para o esvaziamento do evento. Kirchner, aliás, nem sequer participou da reunião. Sua passagem por Brasília se restringiu a um jantar anteontem à noite com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o colega venezuelano Hugo Chávez, com quem assinou acordos bilaterais.
Ontem, assessores do Palácio do Planalto tentaram minimizar a ausência do argentino. Irritado com o questionamento da imprensa e irônico em suas respostas, o assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, afirmou: Vocês [repórteres] escrevam o que vocês quiserem. O Kirchner voltou porque tinha compromissos eleitorais na Argentina.
Lula, porém, decidiu não poupá-lo de críticas, mesmo que de forma indireta e sem citá-lo nominalmente. Primeiro, na abertura de reunião da recém-criada Casa (Comunidade Sul-Americana de Nações), atacou os chefes de Estado que ficam confinados em seus países. Sei que temos problemas e responsabilidades que exigem nossa atenção e presença cotidianas em nossos países, o que limita nossa assistência a compromissos internacionais. Mas a experiência nos mostra que, em um mundo interdependente como o nosso, não podemos ficar confinados em nossas fronteiras nacionais.
Mais tarde, em fala no encerramento da cúpula, foi mais direto em seus ataques. Nem sempre a gente consegue fazer o debate político, porque muitas vezes nós começamos uma reunião com 12 presidentes e a terminamos com quatro presidentes, cinco presidentes. Outra alfinetada de Lula ao argentino ocorreu por meio de rasgados elogios a Eduardo Duhalde, presidente da Comissão de Representantes Permanentes do Mercosul e um dos principais adversários políticos de Kirchner.
Para a reunião de ontem, o governo brasileiro convidou 11 chefes de Estado da América do Sul. Cinco deles enviaram apenas representantes (Colômbia, Uruguai, Guiana, Suriname e Argentina), entre os quais vice-presidentes, chanceleres e embaixadores. Marcaram presença os presidentes de Peru, Bolívia, Chile, Equador, Venezuela e Paraguai, além do Brasil.
O encontro de cúpula dos 12 países teve como principais enfoques a discussão em torno da criação de uma área de livre comércio na América do Sul e a coordenação política na região, além da chamada conexão física pela infra-estrutura (incluindo financiamentos do BNDES). Ontem, Alejandro Toledo passou do Peru ao Brasil o comando temporário da Comunidade Sul-Americana de Nações. Em diferentes falas, Lula disse que está na hora da ação, não da retórica, que os chefes de Estado não podem perder a paciência nas negociações e que atualmente é mais otimista que a média dos seres humanos.


