Lula é aplaudido no velório de Arraes
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domingo, 14 de agosto de 2005
Leonencio Nossa e<br>Ângela Lacerda<br> Agência Estado 
Recife - Numa cova simples foi enterrado ontem, às 17h45, o corpo do político Miguel Arraes, de 88 anos, no Cemitério de Santo Amaro, no Recife. Uma placa com a frase ''O homem marcado pelas duas mãos e o sentimento do mundo'', baseado em um poema de Carlos Drummond, marca o local. A frase foi citada por Arraes na sua volta do exílio, em 1979.
Miguel Arraes de Alencar, presidente do Partido Socialista Brasileiro, ex-governador e deputado federal, foi sepultado com honras de chefe de Estado, sob aplausos, choro, tiros de canhão. Cerca de 6 mil pessoas acompanharam o carro dos Bombeiros que levava o caixão com o corpo do político do Palácio do Campo das Princesas, em um trajeto de 1,5 quilômetro, até o cemitério, onde outros 4 mil admiradores do socialista esperavam, segundo dados da Polícia Militar. Desde sábado, cerca de 15 mil pessoas participaram do velório.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve ontem pela manhã no velório. Arraes morreu sábado, depois de 57 dias de internação. Lula, que ficou cerca de 1h15 no local, teve um rápido encontro com o prefeito de São Paulo, José Serra, e o governador paulista, Geraldo Alckmin, em uma sala próxima ao saguão de entrada do palácio onde estava o corpo. Trocaram apenas cumprimentos.
Ao chegar Lula foi aplaudido pelos populares que faziam fila para se despedir do homem que virou mito ao defender causas sociais. Os tucanos, vaiados pela multidão, reivindicaram para eles a marca da coerência e da luta por justiça social do último dirigente popular brasileiro cassado pelo golpe de 1964.
Quando o presidente chegou ao palácio, às 9h45, a multidão cantava a versão adaptada de uma música da campanha de Arraes ao governo do Estado em 1986. ''O povo chora por aquele que fez mais/ Arraes, Arraes, Arraes/Lá no céu só vai dar Arraes''. Ao verem o presidente, os populares mudaram para ''Olê, olê, olá, Lula, Lula''.
O presidente ficou dez minutos em frente ao corpo de Arraes. Com olhos marejados, Lula chegou a dar leves toques no vidro do caixão, que estava coberto com as bandeiras de Pernambuco e do Brasil. Uma imagem de Padre Cícero, santo popular do Ceará, Estado onde nasceu Arraes, foi colocada sobre o caixão.
Das mais de 70 coroas de flores enviadas à família do ex-governador, destacavam-se as flores brancas oferecidas pela primeira-dama Marisa Letícia e Lula e as vermelhas, enviadas pelo presidente de Cuba, Fidel Castro. O ditador cubano mandou um mensagem destacando que Arraes foi valente ao lutar pelos humildes.
Lula conversou com a viúva de Arraes, dona Madalena. ''Foi com Miguel Arraes que muita gente comprou o primeiro colchão e o primeiro rádio à pilha e teve acesso à luz elétrica'', disse o presidente, segundo relato de assessores. ''O que nos conforta é saber que a passagem de Arraes pela Terra valeu a pena'', completou.
Arraes teve dois filhos com Madalena e outros oito com a primeira mulher, que morreu quando ele governava Pernambuco pela primeira vez, em 1963.
José Serra e Geraldo Alckmin chegaram juntos ao velório. ''Um, dois, três, Lula outra vez'', gritaram os populares no momento em que os tucanos desceram do carro.
Informado da presença dos tucanos, Lula pediu que o deputado Eduardo Campos (PSB-PE), neto de Arraes, recepcionasse os adversários. ''Eduardo, vai lá, recebê-los'', disse o presidente. ''Eu fico aqui esperando'', completou. Em seguida, Alckmin e Serra chegaram à sala da Secretaria de Imprensa, onde Lula estava. ''Foi apenas um cumprimento e algumas palavras'', relatou o prefeito de São Paulo. José Serra puxou papo, lembrando que ele e Lula estiveram no Recife em 1979 no retorno de Arraes do exílio político. ''Você lembra que aquela vez, no retorno dele do exílio, estivemos aqui?''
Lula deixou o Campo das Princesas às 11 horas. Os tucanos saíram do palácio por volta de 12h30. Nenhum deles ficou para ver um idoso que, ao se aproximar do caixão de Arraes, gritou: ''Pernambuco está lascado. Não tem mais homem macho para brigar pela democracia como Arraes''.
Também não viram a multidão vaiar o senador petista Cristóvam Buarque (DF) e a senadora Heloísa Helena (PSol-AL). Uma das mais atuantes integrantes da CPI dos Correios, Heloísa foi chamada de traíra. ''É normal que petistas façam isso. Mas eles deveriam estar aborrecidos é com os que destruíram o PT e jogaram o partido nesse lamaçal de corrupção'', se queixou.
O cantor Caetano Veloso, os senadores Marco Maciel (PFL-PE) e Pedro Simon (PMDB-RS) e a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy compareceram ao velório. Simon avaliou que a morte do líder socialista é o fim de um ciclo.


