Lula diz que o País está à beira do caos
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quarta-feira, 01 de julho de 1998
Vera Rosa e Carla Franco 
No quarto aniversário do Real, o candidato do PT à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, deixou de lado a moderação nas críticas ao plano econômico do governo e voltou a atacar seus efeitos. O povo tem de aprender que ninguém pode viver de fantasia e o Brasil está à beira do caos, afirmou. No México, a fantasia durou seis anos, mas aqui faz muito tempo que esse plano precisa de ajustes, precisa ser mudado. Para Lula, em nome da estabilidade da moeda, qualquer coisa é válida para o governo. O que vale para a equipe econômica é a obsessão da moeda e nós queremos a estabilidade com crescimento, distribuição de renda e geração de empregos, argumentou o petista.
Na sede do PT, em São Paulo, o candidato recebeu um grupo de desempregados e o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho. O sindicalista entregou a Lula um documento de 11 páginas intitulado Propostas para a Geração de Empregos, com sugestões para o programa de governo da frente de esquerdas. Não temos nada a comemorar, só a protestar nesses quatro anos de Real, disse Vicentinho. Reconhecemos que controlar a inflação é difícil, mas não podemos tapar o sol com a peneira: o governo tirou do povo para dar aos banqueiros e ao capital externo, e o efeito positivo do plano desapareceu diante da miséria.
Lula e Vicentinho sentaram-se ao lado de quatro desempregados, que hoje vivem de fazer bicos, e ouviram relatos emocionados sobre as dificuldades para sustentar a família. O Real é tão bom que tem me levado à loucura: estou sendo despejada por atraso no aluguel de onde moro há 20 anos, contou a enfermeira desempregada Maria Solange. Esse plano só dá certo para os ricos porque quem é pobre ficou mais pobre.
O candidato do PT citou vários números, alguns deles indicadores oficiais do IBGE, na tentativa de rebater as afirmações do presidente Fernando Henrique Cradoso, para quem o Real conseguiu tirar da pobreza 13 milhões de brasileiros. O desemprego atinge 1,6 milhão de pessoas só na Grande São Paulo, 450 mil pequenos produtores foram expulsos do campo e 850 mil postos de trabalho fecharam-se neste país, afirmou. Não vejo, portanto, onde houve inclusão social.
Lula acusou Fernando Henrique de transformar o País num balcão de negócios para os especuladores estrangeiros. É possível termos uma política de estabilidade da economia baseada no crescimento da agricultura, da indústria, da oferta de empregos e na melhoria de qualidade de vida do povo. A do Fernando Henrique é baseada exatamente no contrário.
Escalado por Lula, o economista Guido Mantega, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), também fez uma descrição assustadora do atual cenário. A dívida pública subiu de R$ 61 bilhões para R$ 300 bilhões e Fernando Henrique vai deixar as contas em petição de miséria quando sair do governo, sustentou. Ele lembrou que, no ano passado, o Brasil precisou de US$ 56 bilhões para fechar suas contas e disse que a dívida externa, no fim do ano, chegará a US$ 220 bilhões.
Mantega observou ainda que os níveis de desemprego hoje são maiores do que os da década de 80, a chamada década perdida. Lula aproveitou a deixa para concluir: Em vez de comemorar esses quatro anos de Real, o governo devia discutir com o povo brasileiro o que falta fazer.
O presidente nacional do PT, José Dirceu, disse que o desemprego é a marca destes três anos e meio do governo Fernando Henrique Cardoso.


