Brasília - Dezesseis dias após o acidente com o avião da TAM, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou ontem, em reunião com ministros e líderes partidários, que estava mal informado sobre a extensão e a gravidade da crise aérea que assola o Brasil há mais de dez meses.
''É como um paciente que não soubesse a gravidade da doença e aí, quando vê, está com metástase no corpo todo'', disse Lula, segundo os relatos de participantes.
A comparação do caos aéreo à fase terminal de um câncer é a primeira admissão de Lula, ainda que distante dos microfones, de que o governo não tinha noção do tamanho do problema. Foi somente na posse do novo ministro da Defesa, Nelson Jobim, na semana passada, que Lula usou a palavra ''crise'' para o caso.
Antes, sempre fazia um diagnóstico menos severo, em que atribuía os problemas a uma conjunção de fatores: quebra da Varig, rebelião dos controladores de vôo e acidente com o avião da Gol. Em março, chegou a cobrar ''prazo, dia e hora'' para o fim dos problemas nos aeroportos brasileiros''.
O presidente levou dez meses para tirar do cargo o ministro Waldir Pires (Defesa), que o próprio Palácio do Planalto considerava aquém da tarefa de arrumar a bagunça aérea. Quis esperar que a crise amainasse, o que não ocorreu. Tirou Pires após o acidente da TAM, quando morreram 199 pessoas - o da Gol, em setembro de 2006, já vitimara 154 passageiros.
Na última entrevista coletiva que concedeu, em maio, chamou o caos de ''problemão'' e declarou: ''Não vamos confundir o acidente do avião da Gol com o Legacy com um problema dos aeroportos, até porque eles se chocaram no ar''.
O governo faz o que pode para não assumir sozinho a culpa pelo caos aéreo. Ontem, Lula voltou a atribuir boa parte do problema aos governos anteriores, pela falta de atenção, planejamento e investimentos.
Na reunião de ontem, Lula afirmou, sempre segundo participantes, que Jobim foi designado para ''criar'' o Ministério da Defesa, que até hoje ''não existia''. Na posse de Jobim, já havia afirmado que ''é preciso repensar o Ministério da Defesa, porque está aquém daquilo que é a exigência da sociedade''. Disse também que o ministério só existia ''no papel''.
O novo ministro assumiu com a clara intenção de dar uma sensação de que a pasta agora tem pulso firme. Em sua primeira entrevista, Jobim disse que tinha ''carta branca''. Na transmissão de cargo, no dia seguinte, afirmou, diante de um constrangido Pires: ''Aja ou saia. Faça ou vá embora''.
O presidente também defendeu uma mudança na lei que permita a demissão de dirigentes das agências reguladoras, que hoje têm estabilidade nos cargos. Segundo congressistas presentes à reunião do conselho político, Lula vai retirar do Congresso o projeto de ''lei geral'' das agências reguladoras, de 2004, que está pronto para ser votado na Câmara.
O texto retira poder das agências (ao transferir aos ministérios a tarefa de definir as outorgas de serviço público), mas não mexe na estabilidade dos diretores.

mockup