Brasília - Um dia após o anúncio de que a economia do Brasil cresceu 2,9% em 2006, bem abaixo da média global de 5,1%, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixou claro ontem que não mudará o comando da economia e elogiou: ''A área econômica está blindada pelo sucesso''.

Se a manchete dos jornais de ontem foi o baixo crescimento do PIB, que foi de 2,6% no primeiro mandato, equivalente à da primeira gestão de Fernando Henrique Cardoso (1995-1998), Lula preferiu comemorar um outro dado da economia: as reservas internacionais superaram US$ 100 bilhões.

Em conversa com jornalistas, durante café da manhã no Planalto, Lula contou que, em 2004, durante viagem à Índia, ele soube que aquele país tinha reservas de US$ 100 bilhões e pensou no dia em que o Brasil chegaria lá. Concluiu, então: ''Taí. Chegamos''.

Um dos jornalistas perguntou se, na viagem de 2004, ele não tinha sonhado também em chegar ao crescimento de quase 10% da Índia.

Lula esquivou-se, dizendo que o Brasil teve pico de crescimento de até 14%, chegou a índices médios de 7% com Juscelino Kubitschek, mas não distribuiu renda: ''O povo ficou mais pobre''.

O presidente também descartou a intenção de concorrer ao terceiro mandato, criticou ''erros históricos'' dos EUA com a América Latina e falou de seu encontro com o presidente George W. Bush, em São Paulo, no próximo dia 9.

O café durou cerca de uma hora e meia. Havia 11 jornalistas e não foi permitida gravação. As declarações de Lula, portanto, foram anotadas.

SUPERÁVIT PRIMÁRIO
O presidente disse que, além de preservar a equipe econômica na reforma ministerial, também não pretende mudar a política do setor. Disse que o país crescerá ''sem que a gente faça loucuras'' e acrescentou: ''Não me peça para fazer mágica''. Segundo ele, o país vem de décadas de irresponsabilidade e ''não custa nada ter uma década responsável''. Assumiu para si a responsabilidade pela economia, ao dizer: ''Sou eu que me exponho, que ponho a cara na rua para ser xingado. Se alguém tem que reclamar sou eu''. Em seguida, comparou: ''Pior é pensar que dá um salto e cair num buraco''. Otimista, Lula disse que o país está indo muito bem, nunca teve condições econômicas tão favoráveis e afirmou: ''Estamos a um fio de chegar lá''.

REFORMA TRIBUTÁRIA
Segundo Lula, a reforma está empacada porque ''cada entidade tem a sua, cada um quer uma'', como, aliás, disse que já reclamou com os empresários Jorge Gerdau, do grupo Gerdau, e Armando Monteiro, presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria).

TERCEIRO MANDATO
Pela primeira vez publicamente, Lula descartou disputar o terceiro mandato: ''Eu acho impossível. Nada é impossível, mas não há essa hipótese. É brincar com a democracia.'' Ele lembrou que é um crítico da reeleição, disse que tentará eleger ''um companheiro'' e manifestou ''um sonho'': ''Terminar este mandato muito melhor do que terminei o primeiro. Nada pior do que um presidente terminar o mandato com o candidato dele sem o querer no palanque. Quero terminar meu mandato tendo que recusar convite para ir a palanque''.
Lula admitiu que poderia não estar bem preparado para assumir a Presidência na primeira vez que concorreu, em 1989. ''Dou graças a Deus (por ter perdido). Esses 13 anos de espera foram uma universidade, um mestrado, um doutorado e... o que se faz depois disso? Ah. Sim. Pós-doutorado''.

REFORMA POLÍTICA
Um compromisso assumido por ele durante a conversa: ''A Presidência da República não vai se meter na reforma política'', disse, defendendo que essa é uma questão para os partidos.

MINISTÉRIO
Afora confirmar a permanência da equipe econômica, Lula se negou a dar nomes que mudarão com a reforma ministerial e ironizou os jornalistas: ''Eu fico sabendo das coisas por vocês. É fantástico''.

SEGUNDO TURNO
Lula disse que, durante a campanha da reeleição, ele achava ruim a hipótese de disputar o segundo turno, que acabou ocorrendo, mas agora avalia que foi ótimo: ''O segundo turno foi uma dádiva de Deus. Não poderia ter acontecido uma coisa melhor''. Explicou que o segundo turno muda a relação com senadores, deputados, partidos e destacou: ''Senadores que trabalharam contra mim hoje não têm mais disso''. Lula não deu nomes, mas pelo menos os pedetistas Cristovam Buarque (DF) e Jefferson Peres (AM) estão nesse caso.

ETANOL
A Petrobras vai participar ativamente do programa do etanol, que considera prioritários os esforços para substituir o petróleo por biocombustíveis a médio e longo prazos. A participação da Petrobras será ambiciosa, diz o presidente, ''como garantidora de suprimento, inclusive no mundo''. Ao defender o etanol e os carros flex, o presidente disse que não basta querer, é preciso também garantir que o combustível chegue aos postos.

CONVERSA COM BUSH
Confirmou que etanol é central nas conversas que terá com George W. Bush em São Paulo na semana que vem. ''Para mim, o mais importante [na conversa] será o etanol. Vou discutir isso com o presidente Bush, porque o biocombustível não pode ser um programa de um único país, mas uma responsabilidade do mundo''.
Em outro momento da conversa, ele afirmou que pretende perguntar aos norte-americanos: ''Por que fazer etanol de milho? Por que não dar o milho para as galinhas?''

ESTADOS UNIDOS
O presidente desmentiu a acusação de ''antiamericanismo'': ''Não. Veja. Os EUA são um parceiro estratégico para o Brasil. Nós temos muito a aprender e a ensinar a eles''. Para Lula, os EUA ''cometeram um erro histórico contra a América Latina, com uma relação truncada de preconceitos e cismas''. Ele opinou que ''as relações estão maduras'' e fez uma ressalva: que não se deve confundir suas ''posições pessoais'' com suas ''posições de chefe de Estado''. E criticou: ''Durante décadas, o Brasil agiu como subserviente aos EUA. Nenhum interlocutor aceita subserviência. Nem o marido da mulher, nem a mulher do marido. Senão, ninguém te respeita''.

FMI
O presidente lembrou que, ''diferentemente das décadas passadas, quase não se fala mais em FMI (Fundo Monetário Internacional)'' e comparou: se, antes, a instituição só falava em contenção de despesas, ajuste fiscal e arrocho, ''agora tem que falar em crescimento econômico, em desenvolvimento, o que é uma mudança extraordinária''. Ele acha que o alvo devem ser os países mais pobres, como os africanos e o Haiti.

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