Lula dependerá de habilidade para costurar alianças no Congresso
Liderança petista avalia que presidente eleito saberá lidar com legislativo conservador; cientista político prevê boa relação com Ratinho Jr
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de novembro de 2022
Liderança petista avalia que presidente eleito saberá lidar com legislativo conservador; cientista político prevê boa relação com Ratinho Jr
José Marcos Lopes - Especial para a FOLHA 

Eleito no último dia 30 de outubro para seu terceiro mandato presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisará de habilidade política para articular uma base sólida num Congresso que elegeu maioria de parlamentares de direita e apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PP) na próxima legislatura.
Na análise de um deputado que integrará a base, Enio Verri (PT-PR), e do cientista político Doacir Quadros, ouvidos pela FOLHA, o petista não terá dificuldades para formar suas alianças e deverá ter uma boa relação com o governador reeleito do Paraná, Ratinho Junior (PSD).
Para Enio Verri, reeleito deputado federal neste ano, Lula construirá uma maioria no Legislativo. “Lula nunca elegeu a maioria no Congresso, ele sempre construiu a maioria, graças a sua capacidade de negociação e diálogo”, diz o deputado, uma das lideranças petistas no Congresso. “Nossa frente tem algumas propostas que podem gerar divergências na Câmara, mas isso é normal. A Câmara é um local de divergência, diálogo e acordos”.
A articulação deverá contar com nomes do centrão, de partidos como PP e PSD, que integram a base de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PL). Isso envolverá uma repactuação do chamado “orçamento secreto”, em que recursos do orçamento são destinados a emendas sugeridas pelos parlamentares. Segundo a oposição, o “orçamento secreto” foi a moeda de troca usada por Bolsonaro para manter a maioria no Congresso.
"O que o Bolsonaro fez foi uma terceirização do papel do Executivo. Ele transferiu a responsabilidade sobres os recursos para o presidente da Câmara (Arthur Lira), que os repassa para os parlamentares que votam como o centrão quer”, avalia Verri. “Os projetos de caráter nacional deixam de existir e os recursos não chegam de forma planejada. O que o Lula poderá fazer é definir em qual setor eles serão aplicados”.
DIÁLOGO ABERTO
O cientista político e professor universitário Doacir Quadros avalia que os discursos dos presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e da Câmara, Arthur Lira (PL-AL), após a eleição de Lula, sinalizam uma abertura de diálogo. “O Rodrigo Pacheco já chamou a atenção para a importância da reunificação do país e o Arthur Lira disse que trabalhou em conjunto com o atual presidente e assim pretende trabalhar com o próximo governo”, afirma. “E o Lula, nas suas gestões anteriores, se mostrou eficaz nessa articulação”.
Para Quadros, haverá uma aproximação natural entre o futuro governo e o centrão. “Haverá uma recomposição. O centrão sempre se aproxima do governo e nem todos os deputados são um fenômeno do bolsonarismo. Não há uma identidade bolsonarista em boa parte do centrão e os partidos não possuem uma fidelidade ideológica”. Enio Verri vê essa aproximação como certa: “O centrão existe para ser base, é base desde o governo do (José) Sarney. Não creio na expectativa de que o centrão vá fazer oposição”.
Ratinho JUnior
Doacir Quadros acredita que a relação entre governadores e Executivo federal vai melhorar a partir do próximo ano. “Não é confortável, em uma democracia, um governo para amigos e inimigos. O Lula, em seu discurso, mostrou essa preocupação em reunificar o país, governando com os estados. Isso é muito emblemático”.
A postura do futuro presidente, aliado ao fato de Ratinho Junior nunca ter sido um “bolsonarista raiz”, poderá facilitar a aproximação, diz o cientista político, o que também significaria um afastamento da imagem de Bolsonaro. “O Ratinho Junior tem um capital político bem sucedido no Legislativo e no Executivo. Sua aproximação com Bolsonaro foi mais casual. Os governadores eleitos, como Tarcísio de Freitas, em São Paulo, vão querer dar personalidade a seus governos, para criarem seu próprio capital político”.
Enio Verri cita o PSD, partido de Ratinho Junior, como mais um fator de aproximação entre o governador e o presidente eleito. Ex-ministro de Dilma Rousseff, o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, já estaria negociando apoio ao governo Lula.
“O Ratinho Junior apoiou o Bolsonaro por uma questão de conjuntura, não é de extrema direita. Ele tem mais sorte que juízo, porque o Kassab tem uma boa relação com o Lula”, afirma o deputado do PT. “O Paraná não deixará de ser atendido, até porque o povo paranaense deu 37% de seus votos para o Lula. Para quem ganhou por 2 milhões de votos, foi substancial”.
"O Lula vai enfrentar muita oposição no Congresso", diz deputado bolsonarista
Apesar de articular com partidos de centro para buscar a governabilidade no Congresso, é certo que o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva deverá encontrar no espólio bolsonarista um forte foco de oposição. Em seu discurso em que fez um apelo aos caminhoneiros que o apoiam para que desobstruísse as rodovias, o presidente Jair Bolsonaro (PL) disse que estar honrado de representar a liderança da direita ao receber 58 milhões de votos nas urnas.

O deputado federal reeleito pelo Paraná Diego Garcia (Republicanos) é um dos integrantes da base bolsonarista que exaltam o presidente como figura estratégica na oposição e nas eleições municipais de 2024. “É um líder importante para uma oposição sadia e madura que é fruto da democracia. O Lula vai enfrentar muita oposição no Congresso e vai ter muita resistência para conseguir aprovar projetos da esquerda radical", diz ele à FOLHA.
Sobre as manifestações antidemocráticas de caminhoneiros que promoveram bloqueios em várias rodovias pelo País em protesto à derrota de Bolsonaro nas urnas, Garcia diz que foram “pacíficas e ordeiras” e questionam o processo político que resultou na derrota do presidente, principalmente, na avaliação dele, por conta das decisões do TSE que beneficiaram apenas a candidatura da oposição. “Foi uma somatória de fatos que motiva a população estar nas ruas e fazer esse protesto, sem ter um líder e de forma espontânea”, comentou.
Questionado sobre a atuação da PRF nos desbloqueios das rodovias, o deputado bolsonarista ataca a interferência do ministro do Supremo Alexandre Moraes, que também ocupa a presidência do TSE. “O ministro tem que sair do gabinete e vir para o mundo real. Essa é a motivação que leva o povo para rua. A mensagem que a população passa nos protestos, que não começaram hoje, é que quer mais transparência e menos interferências. Não temos harmonia entre poderes. Existe só um poder e nós vamos trabalhar nos próximos anos por uma reforma no Judiciário”, declarou. (Rafael Fantin/Especial para a FOLHA)


