O candidato à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esteve ontem em Brasília e dedicou a tarde para reclamar à Justiça Eleitoral o tratamento desigual que estaria recebendo dos meios de comunicação, em relação ao presidente Fernando Henrique Cardoso. Lula não quis falar sobre as denúncias de que teria ocorrido irregularidade na venda de um automóvel do candidato do PT. Texto distribuído pela assessoria dele, entretanto, afirma que ‘‘quem tem medo da Justiça não entra num tribunal’’.
Lula foi ontem ao Supremo Tribunal Federal (STF), onde esteve reunido com o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Ilmar Galvão. Em carta entregue a Galvão, Lula afirma que ‘‘o caráter unilateral, insidioso, difamatório, de matérias surgidas na imprensa escrita, rádio e TV, nos últimos dias, dificilmente poderá ser neutralizado através dos instrumentos judiciais correntes’’.
Segundo Lula, ‘‘quando a verdade for restabelecida, é pouco provável que o dano pessoal e político possa ser reparado’’. ‘‘Já vivi situações semelhantes no passado, quando fui objeto de denúncias comprovadas judicialmente como falsas e acarretando para seus autores penalidades , mas que só foram desmontadas quando os prejuízos políticos se revelaram irreversíveis’’, afirma Lula na carta. Para ele, denúncias como da venda do carro são praxe durante campanha eleitoral. ‘‘No Brasil, adotou-se a conduta de acusar-se e os acusados é que tem de provar que são inocentes, mas eu sempre adotei o inverso’’, afirmou Lula. O presidente nacional do PT, José Dirceu, disse que o partido sabe ‘‘onde e como começou a montagem dessa denúncia’’.
O candidato do PT considera que os meios de comunicação tiveram um comportamento irresponsável e leviano. Por esse motivo, o PT entrou no TSE com três pedidos de resposta contra a TV Bandeirantes, autora da primeira reportagem sobre supostas irregularidades na venda do automóvel. De acordo com Dirceu, o partido também estava entrando com uma ação para reparação de danos morais contra a Bandeirantes e com uma queixa crime.
Para Lula, é mais grave o comportamento das emissoras de rádio e TV por serem concessões públicas. ‘‘Historicamente, a trajetória dessas emissoras sobretudo as televisões foi marcada por uma promiscuidade e subserviência em relação ao poder, que se poderia explicar quando sobre elas pesavam ameaças do regime militar, mas que assumem hoje um caráter perverso posto que o País vive sob o Estado democrático de direito’’, diz Lula no documento.
Para mostrar que os meios de comunicação estão tratando de forma desigual Lula e Fernando Henrique, o PT fez um levantamento sobre o que foi veiculado nos telejornais entre os últimos dias 1º e 10.
De acordo com esse levantamento, as telejornais dedicaram 2 horas e 19 minutos ao governo e 45 minutos a Fernando Henrique Cardoso. Enquanto isso, Lula ficou com 17 minutos e Ciro Gomes, com 5 minutos. De acordo com a assessoria de Lula, o presidente do TSE teria se dito ‘‘preocupadíssimo’’ com essa situação. ‘‘Além do uso da máquina, do poder econômico, temos agora essa desigualdade nos meios de comunicação’’, afirmou o presidente do PT José Dirceu.

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