Brasília - Passada a euforia dos primeiros meses do ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assume um estilo cada vez mais ''pé no chão'', admitindo que o governo tem limitações, é passageiro e está longe de cumprir suas promessas. A idéia de que a solução dos principais problemas do País dependia só de vontade política deu lugar à constatação de que falta dinheiro e não é possível atender a todas as demandas.
Lula convive com as restrições de um Orçamento apertado e já sabe que em 2004 não será diferente - a não ser pelo fato de que não poderá mais culpar diretamente seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Até agosto, a meta de superávit primário levou o governo a economizar R$ 36 bilhões para o pagamento de juros. O resultado são cofres vazios na Esplanada dos Ministérios e uma lista de obras e projetos sociais parados, alimentando a insatisfação - e as pressões - de ministros e políticos aliados.
''Eu sei que nós ainda não fizemos 1% daquilo que nós nos propusemos a fazer'', disse Lula em Corumbá (MS), no dia 11, ao lançar edital para a recuperação de rodovias na região do Pantanal. Ele voltou ao assunto quatro dias depois, na comemoração do Dia do Professor, no Palácio do Planalto. ''Não conseguimos fazer ainda 10% daquilo que sonhamos fazer'', discursou. ''Sonhamos grande, pensamos grande. E damos apenas o passo do tamanho que a nossa perna pode dar. Não vamos fazer e prometer nada que nós não possamos cumprir.''
A penúria no caixa federal tem exposto o governo a constrangimentos, como a falta de dinheiro na Embaixada no Paraguai para pagar dívidas da viagem de Lula àquele país, em agosto. ''Na medida em que o dinheiro disponível para os investimentos, que todos sabemos que é necessário para o crescimento de um país, está muito pouco, eu tenho chamado a atenção para a criatividade'', disse o presidente, na abertura do 3º Fórum Internacional de Microcréditos, dia 6, expondo sua estratégia para driblar a crise.
Fiéis escudeiros do presidente negam que o PT esteja aprofundando a política econômica do governo Fernando Henrique. José Genoino por exemplo, fala em ''herança maldita'' e argumenta que a equipe econômica teve de ''segurar o boi pelos chifres'' para pôr o País no rumo certo. Na mesma linha, ressalta que o PT não foi eleito para fazer rupturas, mas para mudar o País gradualmente. Por isso, lamenta a atitude ''precipitada'' de alguns companheiros que acham que o sonho já acabou - como o deputado Fernando Gabeira, que acaba de sair do partido. ''Não adianta sonhar e ficar por isso mesmo. E para mudar, tem de sonhar com os pés no chão.''

mockup