Lula deixa convicções e muda estilo de governar
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domingo, 28 de novembro de 2004
João Domingos e Christiane Samarco<br>Agência Estado 
Brasília, DF- A segunda reforma ministerial do governo do PT revela o presidente Luiz Inácio Lula da Silva muito diferente daquele que, em janeiro, tirou alguns petistas do governo para dar lugar ao PMDB e, para ajustes na máquina administrativa, mudou algumas peças de posição. Agora, Lula atua solitariamente. Em vez de delegar poder para as negociações com outros partidos a ministros que antes faziam esse papel, como José Dirceu, da Casa Civil, prefere ele mesmo cuidar da montagem de um governo de coalizão. É ele quem oferece os ministérios aos aliados; é ele quem enquadra os petistas.
Ideologia, sectarismo e cooperação não têm mais espaço na forma de Lula governar, diz um dos poucos auxiliares com quem o presidente ainda se aconselha ou troca informações. Esse mesmo auxiliar informa que, na opinião de Lula, não há lugar para quem acha que é impossível compor com outros partidos ou é contra um governo de coalizão. Ao mesmo tempo, a impressão dos que acompanham Lula no dia-a-dia é a de que a economia derrotou a ideologia, embora a realidade não tenha conseguido matar a utopia.
O presidente ainda pensa que vai acabar com a fome de 11 milhões de famílias. E se desespera ao constatar que o povo não nota isso. Na quinta-feira, em Tucuruí (PA), ele se queixou da população por não notar que sua vida pode melhorar ou que existe crédito popular a juros de 2%. Para algumas das pessoas mais próximas de Lula, os fatos recentes mostram o divisor de águas na vida do presidente. Ele demitiu Carlos Lessa da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e rompeu com a esquerda getulista; recusou-se a ir a um encontro com representantes do movimento dos sem-terra e, ao ser advertido por auxiliares de que deveria comparecer, bateu o pé e respondeu: ''Não vou. Decidi isso. Ninguém me fará mudar de idéia.''
Lula não quis participar do ato com o MST porque um dia antes o presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Rolf Hackbart, havia associado o agronegócio à morte de trabalhadores sem-terra. Quis demiti-lo. Desistiu para não aumentar a tensão com o MST. Com isso, Lula praticamente rompeu uma velha amizade com o presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), dom Tomás Balduíno. Foi criticado pelo advogado, economista e fundador do PT Plínio Arruda Sampaio. Não recuou.


