Lula defende nova geografia comercial
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segunda-feira, 26 de janeiro de 2004
Agência Estado 
Nova Délhi Depois de 23 horas de viagem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou ontem à Nova Délhi para uma visita oficial de quatro dias disposto a construir uma força política capaz de mudar o que chamou de ''geografia comercial'' do mundo. Ao afirmar que de nada adianta o Brasil e a Índia ficarem de braços cruzados esperando as nações ricas resolverem os seus problemas, Lula disse que o grupo de países em desenvolvimento, batizado de G-20, deve fincar em junho as estacas de um novo sistema de preferências comerciais.
A data é uma referência à 11 reunião da Unctad, organismo das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento, que será em São Paulo. Em encontro a portas fechadas com o primeiro-ministro da Índia, Atal Bijari Vajpayee, Lula falou da importância de fortalecer o G-20. Pouco antes, ao lado do premiê, participou da cerimônia de assinatura de seis acordos, um deles da Índia com o Mercosul, bloco formado por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.
''Devemos aproveitar a 11 Unctad para lançarmos as negociações do sistema geral de preferências comerciais'', disse.''Será este, possivelmente, o primeiro passo para a criação de uma área de livre comércio entre os países do grupo, aberta a outros países em desenvolvimento.''
Para o presidente, é preciso derrubar os ''injustificáveis subsídios com que os países ricos distorcem a economia agrícola do mundo''. Ele ressalvou que não se trata de relegar o relacionamento com os países ricos a segundo plano, mas de ter criatividade para superar os problemas dos mais pobres e defender seus interesses em pé de igualdade.
Mais tarde, em jantar oferecido pelo presidente da Índia, Abdul Kalam, no Palácio Rashtrapati Bhawan, Lula destacou que, na lista das parcerias, nenhuma é mais importante do que o combate à fome. Ele lembrou que a criação do G-3, integrado por Brasil, Índia e África do Sul, atraiu a atenção de políticos dos mais variados quadrantes porque pretende desenhar novos paradigmas de desenvolvimento. ''Mas em nenhum outro campo essa cooperação é mais urgente e necessária do que no combate à fome e à extrema pobreza'', disse.
Lula insistiu em que a distribuição equitativa de renda e riqueza deve ser a alavanca, não mera consequência, do desenvolvimento. O Brasil está no ranking dos cinco países com a pior distribuição de renda do mundo, só perdendo para África do Sul, Nicarágua, República Centro-Africana e Senegal. A distribuição de renda na Índia não é tão concentrada, mas o País vive um quadro dramático de pobreza, muito maior do que no Brasil.
Nos dois discursos que fez ontem, Lula insistiu no papel de liderança do G-3 na nova ordem mundial. Ao indiano Abdul Kalam ele ressaltou que tem encontro marcado no próximo dia 30, em Genebra, com o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan, e com o presidente da França, Jacques Chirac, para articular a mobilização dos líderes mundiais, sobretudo os dos países ricos, na luta contra a pobreza. Em todas as conversas, Lula reiterou a necessidade de fortalecer a ONU e, em especial, o Conselho de Segurança.


