Ilha de Marajó - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que a direita não tem piedade, ao criticar os senadores da oposição que ameaçam votar contra a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Ele deixou claro também que vai cobrar dos governadores, caso a contribuição não seja aprovada, que eles visitem casa a casa para mostrar quem foram os senadores que votaram contra.
  ‘‘Já apanhei o que tinha que apanhar, porque a direita não é mole. Vocês pensam que a direita é como a esquerda? Não. A esquerda faz um discurso aqui e vai embora. A esquerda é cheia de moralismo. Não pode falar da família, não pode atacar, não pode fazer isso. A direita não tem piedade’’, afirmou o presidente durante discurso na cidade de Breve, na Ilha de Marajó (PA).
  A cidade, de 95 mil habitantes, parou para o presidente. Feriado decretado pelo prefeito, mais de 5 mil pessoas foram até Avenida Rio Branco ver Lula anunciar um programa de registro civil e concessão de terras para povos ribeirinhos. Mas o discurso esquentou mesmo quando no final, de improviso, o presidente decidiu falar da CPMF.
  No palanque, ao lado da governadora do Pará, Ana Júlia Carepa (PT), Lula disse que os R$ 40 bilhões anuais da CPMF são imprescindíveis ao governo, que usa esses recursos para a Saúde e para programas como o Bolsa-Família. E mandou um recado: ‘‘Eles estão lá dizendo que vão votar contra (a CPMF), vão votar contra, achando que vão me prejudicar. Mas aqui, Ana Júlia, se eles votarem contra, temos que ir para cada casa mostrar quem é o senador responsável de deixar as pessoas sem os benefícios desses programas’’, afirmou.
  Lula voltou a dizer que ‘‘a campanha contra a CPMF é a campanha daqueles que gostam de sonegar’’. ‘‘Porque a CPMF é aquele imposto do cheque que se a pessoa sonega a gente pega’’, explicou ao povo, que enfrentou um sol escaldante por mais de 6 horas para assistir o discurso do primeiro presidente da República eleito a visitar a Ilha. O primeiro, foi Figueiredo. Em meio ao público, várias pessoas acabaram desmaiando por causa do forte calor. ‘‘Vamos esperar a semana que vem.’’
  Segundo ele, se os senadores ‘‘tiverem juízo’’ vão aprovar a prorrogação da contribuição. ‘‘Se os senadores não tiverem juízo, votam contra’’, disse Lula, que fez questão de ressaltar que se caso a contribuição seja rejeitada, só o Estado do Pará deve perder R$ 1 bilhão em investimentos na área social.
  ‘‘Se aprovarem, podem dizer para o povo que graças a eles (senadores) a gente aprovou recursos para ajudar os pobres desse País. Porque se fosse para ajudar os ricos, ninguém votaria contra’’, afirmou Lula. ‘‘Porque cada centavo que a gente quer para favorecer os pobres é uma guerra’’, completou.
  O presidente terminou suas críticas ao Senado dizendo que ‘‘está mais experiente e muito mais tranqülo’’. ‘‘Estou muito mais senhor da situação, muito mais sabedor do que quero e do que posso fazer’’, disse.
  Durante o discurso em que o governo federal concedeu termos de autorização de uso sobre terras da União aos povos ribeirinhos, Lula disse que reconhece o sofrimento desses povos e que ele mesmo já tinha sofrido bastante. Ele ironizou o fato de ser corintiano e que mesmo assim, as pessoas devem ter forças para se levantar. ‘‘Eu mesmo sou torcedor há 57 anos do Corinthians, mas nunca fui sócio do clube. Quando voltar para São Paulo vou virar sócio’’, disse. ‘‘Porque não
tenho medo de perder. Perdi eleições e agora estou aqui, presidente.’’

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