São Paulo - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou os meios de comunicação, principalmente a TV Globo e a revista "Época" - ambas do Grupo Globo -, pela cobertura na Operação Lava Jato. O petista também disse que era lamentável que uma parcela do Poder Judiciário brasileiro estivesse trabalhando em associação com a imprensa. Na abertura de seu discurso na sede do diretório nacional do PT em São Paulo, Lula alfinetou a Globo por não estar presente. "Eu queria começar estranhando que eu não estou vendo o logotipo da Globo aqui."

"Não é possível ver um país sendo vítima de um espetáculo midiático. Em que coloca como corrupção um barco de R$ 4.000 da dona Marisa. Eu, se pudesse, eu dava um iate para ela, não um barco de R$ 4.000", falou, referindo-se a reportagem da "Folha de S.Paulo" publicada em 30 de janeiro último que revelou que a mulher do ex-presidente comprou um barco de pesca e mandou entregar no sítio usado por ele.

"Se preocupando com o pedalinho de R$ 2.000 que ela comprou pros netos. Se preocupando porque estou utilizando a chácara de um amigo", continuou. "Eu uso a de um amigo porque os inimigos não me oferecem. Bem que a Globo poderia me oferecer o tríplex de Paraty", alfinetou o petista, mencionando reportagem da revista "Bloomberg Markets", de 2012, segundo a qual a família Marinho, da Globo, seria dona de uma casa construída em área de preservação ambiental.

O ex-presidente criticou a Polícia Federal por suposto vazamento antecipado da operação para a imprensa. "Lamentavelmente eles preferiram utilizar a prepotência, a arrogância, um show e um espetáculo de pirotecnia. Porque enquanto advogados não sabiam nada, alguns meios de comunicação já sabiam. Então, é lamentável que uma parcela do Poder Judiciário brasileiro esteja trabalho em associação com a imprensa".


Lula disse ainda que a PF obedece orientação da revista "Época" ao pedir para investigar os pagamentos de empreiteiras alvo da Lava Jato para a Lils, empresa de palestras dele. "Quando nós desmentimos a revista 'Época', o procurador resolveu fazer o papel da 'Época' e pedir a investigação das minhas palestras."

"Antigamente, você tinha denúncia de um crime e você ia investigar se existia esse crime e prender o criminoso. Hoje, a primeira coisa que você faz é determinar quem é o criminoso. Depois que você nomeou o criminoso, colocou a cara dele na imprensa, você então vai criar os crimes que ele cometeu", exaltou Lula.
Nessa mesma linha, o ex-presidente disse o país não deve continuar amedrontado pela imprensa. "Nosso país não pode continuar amedrontado. Nosso país não pode ver qualquer juiz que puna alguém receber um prêmio da Rede Globo, um prêmio da revista 'Veja', um prêmio não sei de quem. E, a partir do prêmio, todo o dia tem que prestar conta. Antes de os advogados saberem que seu cliente vai ser chamado, a imprensa recebe".


Lula eximiu os jornalistas, mas culpou os meios de comunicação. "Não estou indignado com o jornalista, não. Estou indignado com o comportamento de determinados meios de comunicação. Estou indignado com o julgamento precipitado. Hoje quem condena as pessoas são as manchetes."

BRIGA E PROTESTO
Manifestantes favoráveis e contrários a Lula tiveram que ser apartados diversas vezes na manhã de ontem pela Polícia Militar em protesto em frente à casa do petista, em São Bernardo do Campo (SP), e no Aeroporto de Congonhas, onde o ex-presidente prestou depoimento. À noite, cerca de cem integrantes de movimentos anti-PT se reuniram no vão livre do Masp para comemorar a condução coercitiva de Lula à PF.
Em um ato marcado nas redes sociais em apoio à 24ª fase da Lava Jato, várias pessoas foram às suas janelas e aplaudiram a ação da Polícia Federal. O
"aplausaço", como o ato foi chamado na rede em alusão aos "panelaços" contra a presidente Dilma Rousseff, começou por volta das 20h30.

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