Lula aposta na TV para dar a virada
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sábado, 15 de agosto de 1998
Patrícia Andrade Agência Folha 
O início do horário eleitoral gratuito na televisão é a grande aposta do candidato Luiz Inácio Lula da Silva para melhorar sua posição nas pesquisas. No último levantamento feito pelo Datafolha, o candidato petista à Presidência da República aparece em segundo lugar com 28% das intenções de voto.
Na verdade, nunca o espaço para propaganda política na TV foi tão esperado pelos petistas. Eles têm dito em coro que só vão conseguir superar a desigualdade de condições entre Lula e o presidente Fernando Henrique Cardoso quando tiverem um espaço próprio na televisão para mostrar as propostas da oposição. Além disso, acreditam que com o início do horário eleitoral a militância vai se animar.
O comando de campanha optou por fazer programas carregados de críticas ao atual governo, com destaque para os temas sociais. Vamos mostrar a crise. O Brasil real e não o virtual , disse o coordenador da campanha de Lula, Luiz Gushiken.
Os marqueteiros do PT acreditam que estampar na televisão imagens de seca e fome não vai afastar os telespectadores. Quando as televisões mostraram a seca e o desemprego, o FHC caiu e o Lula subiu nas pesquisas. Vamos levantar de novo esse véu, porque os problemas continuam, disse o publicitário Toni Cotrin, da equipe da TV de Lula. Cotrin trabalhou na campanha do petista em 1989 junto com o publicitário Paulo de Tarso Santos.
Centrar o foco no social tem um outro motivo. Pesquisas qualitativas feitas pelo PT mostram que o eleitor identifica Lula como um político preocupado com as questões sociais e conhecedor da realidade brasileira. Para contrapor a imagem do petista com a do tucano Fernando Henrique, os programas identificarão FHC como o presidente que está do lado dos ricos. Nessa linha, vai ser explorado o Proer, programa criado pelo governo FHC para socorrer bancos privados.
Na primeira semana do horário eleitoral, os programas vão abordar o desemprego e a seca no Nordeste. O grupo que faz a TV de Lula, formado por 60 pessoas e comandado pelos publicitários Toni Cotrin e Eduardo Godoy, conta com seis equipes de repórteres e cinegrafistas que têm viajado Brasil afora para coletar dados. Uma das reportagens vai mostrar que as frentes de trabalho criadas no Nordeste para resolver o problema da seca não estão dando certo.
Ancorado pelo ator Mário Lago, o primeiro programa de Lula terá um tom emocional, com um depoimento pessoal do candidato. Lula falará sobre a infância pobre no Nordeste, a vida de metalúrgico e sua trajetória política.
Outros artistas devem gravar depoimentos. Fazem parte da lista dos que estão sendo contatados os cantores Chico Buarque, Djavan e Chico César, o ator Paulo Betti e a atriz Camila Pitanga.
O formato dos programas será baseado em reportagens que mostrarão os problemas brasileiros. Depois do diagnóstico, aparece Lula com suas propostas.
Estão previstos clipes dos vários jingles que foram feitos para esta campanha. O principal deles é Coração Brasileiro , de Hilton Accioli, autor do Lula-Lá , marca da disputa de 1989.
Acusações mais pesadas ao presidente ainda estão sendo discutidas. Mas é quase certo que o programa vai explorar a frase de FHC chamando quem se
aposenta com menos de 50 anos de vagabundo .
Para as inserções a que têm direito todos os candidatos, os marqueteiros de Lula programaram toques de humor. Os comerciais - que irão ao ar duas vezes por dia com 30 segundos cada um - terão uma linguagem mais publicitária.
Críticas às privatizações também estarão nos programas. Pelo menos duas comparações serão feitas: com a Argentina e com a Inglaterra. Segundo Guido Mantega, economista do PT, na Argentina a telefonia foi privatizada, mas os serviços não melhoraram. Na Inglaterra, de acordo com ele, o sistema de eletricidade foi privatizado, mas funciona mal.
Apoio de FHC O presidente Fernando Henrique Cardoso saiu ontem, em Assunção, em defesa da honra do candidato da frente de oposição, Luís Inácio Lula da Silva (PT), que está sendo investigado pelo Ministério Público por supostas irregularidades na compra de um apartamento. Eu tenho Lula na conta de um pessoa decente, eu o conheço há muitos anos e acho que ele não pode ser julgado a partir desse tipo de questões, disse o presidente. Acho que isso não contribui para o amadurecimento político.


