Lula afirma que deixará 'um legado para a História'
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sexta-feira, 06 de março de 2009
Alexandre Rodrigues enviado especial<br>Agência Estado 
Vitória - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva orgulhou-se ontem de ser o primeiro mandatário do Brasil a manter ''contato direto'' com a população e criticou os meios de comunicação por divulgarem excessivamente notícias e cenas de violência. O presidente se comparou a um craque como o jogador de futebol Ronaldo ao dizer que deixará para o sucessor a difícil tarefa de superar suas realizações. Lula disse que deixará ''um legado para a História''.
''Eu tenho a convicção de que nós passaremos para a História deixando um legado para a sociedade brasileira. Quem vier depois de nós, vai ter que fazer muito mais do que nós. Ou seja, depois que o Ronaldão marcar uns gols no Corinthians, o centroavante que vier depois dele vai ter que fazer mais do que ele. Agora, se ele não marcar nenhum, quem vier depois dele não tem parâmetro, não tem paradigma'', discursou Lula em Linhares, no norte do Espírito Santo, incluindo o governador capixaba, Paulo Hartung (PMDB), no autoelogio. ''Quem vier depois do Hartung e quem vier depois de mim... eles sabem que vão ter que trabalhar e fazer muito para chegar pelo menos perto do que nós fizemos.''
Ao chegar a Vitória na noite de quinta-feira, o presidente iniciou uma série de quebras de protocolo para ter contato com admiradores que cercavam o hotel onde se hospedou. Usando camisas de mangas curtas nos dois dias, ele se aproximou também da população nos eventos que compareceu no Espírito Santo, tirando fotos com muita paciência, distribuindo beijos e abraços, recebendo bilhetinhos e fazendo brincadeiras.
''O Brasil nunca teve o hábito de um presidente ter contato direto com o povo de seu País. Isso possibilitou ao longo dos anos que se criasse uma distância entre quem governa e os governados'', discursou o presidente pela manhã durante o lançamento do Território da Paz no bairro São Pedro, na periferia de Vitória. Ele disse preferir a palavra ''cuidar'' em vez de governar e definiu seu estilo como o de quem não tem medo de conversar ou tocar pessoas comuns. ''Na campanha eleitoral, todo político adora pobre. Mas depois só janta com banqueiro, empresário. Não tem foto de político jantando com pobre, indo a casamento de pobre'', discursou, arrancando risos da plateia de cerca de 400 moradores.
A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que o acompanhava, não discursou. Ela deixou a comitiva em Linhares antes de o presidente inaugurar uma escola técnica à tarde. Quando mencionou sua sucessão no discurso no colégio, Lula não se referiu a Dilma. No entanto, ao recorrer à própria biografia para incentivar os estudantes do Instituto Federal de Educação Profissional especulando se entre eles poderia haver um futuro presidente, foi corrigido por uma aluna de que poderia haver uma ''presidenta''. Lula então afirmou que o País já pode eleger uma mulher. ''Presidenta também. Até porque vocês são 52% da população. Não elegerão uma mulher presidente se não quiserem. Vocês são a maioria'', respondeu.
Ao lançar o Território da Paz em Vitória, Lula sugeriu que a mídia colabora para a criação de uma cultura de violência e cobrou iniciativas educativas de comunicação. ''Fiquem na frente de uma TV 24 horas para ver. É morte de manhã, morte de tarde, morte de noite, morte no café da manhã, morte no jantar. Agora inventaram o videogame, essas maquininhas, e é morte 24 horas por dia'', reclamou Lula, lamentando que a responsabilidade de socializar jovens com essa influência recai sobre professores desvalorizados.
O lançamento do Território da Paz, que concentra 29 projetos do Programa Nacional de Segurança com Cidadania (Pronasci) coincide com o crescimento da violência no Espírito Santo. O número de homicídios subiu 25% nos dois primeiros meses do ano em comparação com o mesmo período de 2008. O presidente se queixou dos meios de comunicação por noticiarem crimes excessivamente e divulgarem programas de inspiração violenta.
O presidente elogiou o ministro da Justiça, Tarso Genro, que o acompanhava no dia de seu aniversário, afirmou que o Programa Nacional de Segurança com Cidadania (Pronasci) é o ''programa mais perfeito'' já proposto nessa área e acusou seus antecessores de terem fugido do problema. Segundo Lula, o Pronasci rompe com a lógica de repressão violenta, mas, num deslize, quase sugeriu que há pessoas que devem ser mortas pela polícia.
''(A polícia) mata quem não deveria matar e quem deve morrer... Ninguém deve morrer porque deve ir para a Justiça'', consertou. Segundo o presidente, o Pronasci quer desenvolver nos Estados, por meio dos cursos de aperfeiçoamento, uma polícia que proteja a comunidade em vez de aterrorizá-la.


