Morde e assopra
Se Luiz Inácio Lula da Silva assumisse o discurso de Gleisi Hoffmann, deixaria de lado aquela vocação para o diálogo e adotaria uma postura de ruptura conveniente à guerra civil, uma espécie de Gumercindo Saraiva ajustado aos nossos dias, o que pegaria bem entre os maragatos ainda existentes por aí, principalmente no Rio Grande do Sul. Mas o ardor da senadora se justifica não só na sua posição de presidente do partido a explorar um sedimento de revolução, ainda detectável na esquerda, e também o de fazer sua autodefesa já que tem vários processos contra ela, além daquele do milhãozinho. A massa seguidora estaria em ponto de bala ou foi revelando fragilidade à medida em que os votos eram prolatados e isso visível lá mesmo na multidão em Porto Alegre?

Havia quem cultivasse a noção de "estouro da boiada" no não conformismo com a esperada confirmação da condenação de Lula e ainda por cima com pena ampliada e, certamente, ajustada entre os desembargadores para não submeter o país a um flagelo em ano eleitoral, evitando a incidência de embargos infringentes (que suavizaram as penas do mensalão) e oferecendo mais elementos de resistência.

Antevendo a possibilidade da prisão, Gleisi lembrou que tal hipótese não impediria mortes, algo que parece estar no raciocínio do ministro Marco Aurelio de Melo que imagina, nada mais nada menos, do que uma conflagração nacional se Lula fosse preso. O teste vivido não deu esse tipo de impressão, percebendo-se no enrolar das bandeiras à medida que os votos dos magistrados eram revelados que os impulsos não eram os da pregação e da expectativa imaginada. Isso também deu para perceber na mobilização de Curitiba.

Lula mais cauteloso, posto que firme na demonização da mídia e do juiz parcial que o persegue, assopra e tenta afastar as labaredas do discurso da senadora. É a aposta no vitimalismo que se acentua com a condenação e a perspectiva de prisão. Dos dois, unidos que estão em tudo, até no descompasso da oratória.

O mercado
A Bolsa oscilou anteontem marcando a euforia do mercado no andamento dos votos do TRF-4 e chegou a uma alta de 3,72% aos 83.600 pontos, acima dos 83 mil pela primeira vez na história. O dólar caiu 2,43% para R$ 3,16 na maior queda desde 19 de maio do ano passado sob o calor do vazamento da delação do empresário Joesley Batista da JBS.

Cerco
Justiça fixou multas diárias aos reitores das universidades estaduais de Londrina e Maringá por descumprirem o enquadramento na Meta 4 que as obriga a revelar gastos discriminados com pessoal, o que as duas ainda se negam a fazer. O ferro é em cima dos reitores como dívida pessoal, mas nada disso parece demovê-los da posição de resistência. Vai dar pano pra manga.

Tenta o governo em sua ofensiva fiscal sobre credores inscritos em dívida ativa forçar a negociação de créditos em precatórios no pagamento de ICMS e IPVA. Como se percebe, há uma inflexão no sentido de baixar dispêndios com precatórios que chegam a astronômicos R$ 7 bilhões o que mostra a gravidade subsistente do desarranjo fiscal. Há ainda a sedução de acertar precatórios com oferta de descontos, uma das seduções postas em prática.

Pássaros silvestres
Surpreendentemente, a cada dia cresce o número de apreensões de animais selvagens, mormente pássaros, em operações de contrabando nas ações da polícia ambiental. Ontem, em Paranaguá, mais dois flagrantes envolvendo a captura de 22 pássaros silvestres.

Desidratada
O relator do texto da reforma previdenciária, deputado Arthur Maia, admite um "pacote de mudanças" entre as quais a que beneficia grupos funcionais que pretendem sustentar aposentadoria integral, dentre eles policiais. Sabe-se que a distância entre o desejável e o possível é imensa e ninguém ignora o poder de categorias de Judiciário e Ministério Público. A bancada da bala, por exemplo, defende as reivindicações dos policiais.

Pelo jeito, vai ficar muito mais desidratada e liofilizada do que já se esperava. De concessão em concessão, flexibilização em flexibilização, a montanha vai parir um rato. E o Brasil continua no beleléu.

Candidatas
Uma linha pragmática no movimento das mulheres da Universidade Federal denominado Escola de Política (uma ironia em cima do escola sem partido) visa mais do que a pura doutrinação para um envolvimento maior em candidaturas, sabidamente, um problema mal encaminhado até hoje com a questão das cotas.

Folclore
Dois advogados, um do Paraná e outro de São Paulo, ingressaram no TRF-4 com um pedido de retenção do passaporte de Luiz Inácio Lula da Silva que deve viajar para a Etiópia por esses dias o que, aliás, já estava agendado. A suposição de que o ex-presidente peça asilo no exterior para dramatizar seu caso está na origem do pedido, mais um sinal de paranoia, semelhante à imaginária rebelião que haveria com sua condenação.

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