Sob suspense
O julgamento do ex-presidente Lula, em Porto Alegre, mostrou que ainda estamos atrasados em processo civilizatório pelo tom apocalíptico, de juízo final, dado ao episódio. Percebe-se o quanto estamos atrasados em democracia ao nos agarrarmos, pela tradição, em salvacionismos, às vezes ornados com tons messiânicos.

Os Estados Unidos nos últimos pleitos tiveram o condão de eleger um negro e reelegê-lo num país ainda agredido pelas diferenças raciais nos sedimentos deixados desde a Guerra da Secessão e agora consagram uma figura agressiva e de impulsos primários, o que é preferível, com tudo o que esse ônus possa representar, à nossa mediania, a reprodução dos velhos quadros e hábitos e persistência do mais abominável dos coronelismos.

Tinha razão o mestre Rui Cirne Lima ao fazer a analogia do nosso federalismo ao conceito de estrato feudal e que se reproduz em sociedades novas como a nossa e a das unidades que formam o Brasil meridional. Toda solução, como a proferida na sentença, há de ter um traço provisório em torno do ajuste sucessório.

Fica de toda a experiência vivida como nos grandes traumas desde o suicídio de Vargas, posto como uma nova aurora nas linhas da Carta Testamento, mais as constituintes de 1946, passando pelas militares até a de 88, anistia e eleições diretas, marcos de esperanças que não se confirmaram, ficamos diante, de novo, de uma lição – a de que povo que precisa de salvadores não merece ser salvo.

Comando e comando
Maior prova de que não há comando político no governo estadual veio agora com o manifesto de cinco partidos - PSDB, PSB, PTB, DEM e PR - afirmando que só Beto Richa deveria comandar a sucessão, uma forma obliqua de constatar que ele não está cumprindo esse papel. Assinam o documento o presidente da Assembleia, Ademar Traiano (PSDB); Severino Araújo (PSB), deputado federal Alex Canziani (PTB), Pedro Lupion (DEM) e deputado federal Fernando Giácobo (PR). Tudo decorre da movimentação exercida pelo ministro da Saúde, Ricardo Barros (PP), colocando seus interesses clânicos e familiares acima dos propósitos da base aliada.

Mas o que fazer se o governador sentir-se atraído pelo pepista como fez lá atrás quando levou em desconsideração um correligionário, mais habilitado, que era Gustavo Fruet, para beneficiar o maringaense? E se não houve vontade e energia para o exercício dessa liderança, o que fazer? Será que o manifesto, assim tão enfático, tira o governador da abulia ou estará ele mesmo convencido de que o rei da cocada preta é o marido da Cida Borghetti?

Mais uma vez em destaque a nossa mediocridade num momento em que brilhamos no mundo jurídico nos feitos da Lava Jato, de sua força-tarefa, do criminalista Renê Ariel Dotti e do juiz Sérgio Moro, delegados e procuradores na ratificação do TRF4 de Porto Alegre, onde também há um desembargador de terra João Pedro Gebran Neto, relator na Corte.

Herança
Das heranças que Beto Richa deixará para seu sucessor, além dos casos de corrupção das operações Publicano e Quadro Negro, será a das cadeias superlotadas e das penitenciárias rebeladas: ontem houve rebelião na de Ponta Grossa com dois guardas reféns e tudo terminou com a intervenção da PM e a liberação dos servidores. Em Ibaiti, a OAB local está pleiteando a interdição da cadeia pública com 154 presos quando a sua capacidade é para 14, situação que se repete na capital e interior. Dará, não apenas nesses casos, para perguntar houve governo?

Receptação
A Prefeitura de Curitiba desenvolve uma operação para combater receptadores de bronze de ornamentos dos cemitérios e das estátuas e monumentos de praças públicas. Urge uma ação cultural e policial para detectar as fontes de aproveitamento e comercialização desse tipo de material.

Crise
O absurdo ocorre na área de segurança no choque entre corporações que a integram e que pode determinar a queda do secretário Wagner Mesquita. A Associação dos Delegados de Polícia se referiu em nota pública ao choque entre o titular da pasta e a oficialidade da PM e isso há bastante tempo. Evidência da ausência de pulso forte.

Esgotos
Sanepar festeja o fato de que a rede de esgotos chega a 70% dos domicílios paranaenses. Destaca o fato de ser a única empresa do país que trataria 100% do esgoto coletado, o que não elide as ações desencadeadas pelo Ibama e Ministério Público de lançamento de resíduos não tratados na bacia hidrográfica do Iguaçu. O pior é que a expansão da rede não impede que se lance esgotos diretamente nos rios por falta de uma ação coordenada da prefeitura com a empresa de saneamento.

Folclore
Como se viu, o juízo final não foi em Porto Alegre, mas em Londrina com 11 pessoas obrigadas pelo Gaeco ao uso de tornozeleira eletrônica, dentre elas dois vereadores, com trutas em cima de valores do desenvolvimento da cidade.

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