Richa até o fim?
Entrou água no plano de Ricardo Barros e de sua mulher como regra três de Beto Richa: em entrevista ao Estadão, ontem, o governador readmitiu que pode permanecer até o fim no cumprimento do seu mandato. Evidente que não se trata de postura definitiva e isso pode ser imaginado diante da pressão do ministro da Saúde que só tem tirado vantagens, pelo menos até agora, desse relacionamento.

Quando o PSDB lançou Alvaro Dias para o Senado mostrou que tinha quadros para a disputa e acertou levando a vaga disponível. Na eleição para renovar dois terços da Câmara Alta, havia apenas um tucano em condições de enfrentar Requião e vencê-lo já que a primeira vaga seria de Gleisi Hoffmann: Gustavo Fruet. Com Beto Richa em alta, fez a pior escolha: apostar em Ricardo Barros do PP e secretário de sua equipe, desprezando a opção do partido com melhor potencial. Barros moeu Requião na capital, o que dá a medida do engajamento, mas era visível seu menor potencial diante de Gustavo Fruet que acabou pela ausência do apoio governamental perdendo por diferença mínima. Se ganhasse, não derrotaria, na sequência, o seu candidato à reeleição na prefeitura da capital ao eliminá-lo do segundo turno e, o melhor de tudo, estaria no ostracismo de Requião sem mandato.

O governador não tem pegada mobilizadora, não exerce autoridade como expressão maior da equipe e essa hesitação erradíssima na questão do Senado, expressa falta de comando sem a qual a liderança hipotética se esvai. Sua vinculação a Geraldo Alckmin, já expressa em eventos anteriores, o leva, no entusiasmo da louvação, a admitir que o seu colega paulista é o único capaz de derrotar Lula, baseado em inspiração de traço indiano e nunca naquilo que afinal as pesquisas têm sugerido.

Enquanto afirma que pode ir até o fim do mandato, com o que reduz a pó a candidatura de Cida Borghetti, sabe que isso afetará setores que já estavam ligados na ascensão da vice e terá que encarar a resistência de Ricardo Barros em nome de compromissos anteriores. É evidente também que muitos dos seus principais aliados, de linha de frente como Valdir Rossoni e o presidente do Legislativo,Traiano, não estavam de acordo com a solução acomodatícia. Cida é, apesar do seu estilo discreto, dotada de uma carga de empatia inegável e que dificilmente absorveria como normal, o tombo inesperado que lhe valeria o apelido de "Esquecida Borghetti", logo ela legionária em tempo integral. Bateu a ciumeira nos bastidores da base aliada e, especialmente, em cima do protagonismo, a um só tempo nacional e regional, de Ricardo Barros. Guerra de egos para ninguém botar defeito, evidência da mediocridade desse exercício entre nós que leva à idealização do passado pelo horror notório ao presente.

Mente perturbada
Brasileiro está com a mente perturbada e isso se observa em pesquisas como a que defende a maioridade penal para adolescentes e a mais recente, mil vezes pior, que admite, segundo o Datafolha, que 57% dos entrevistados se mostram favoráveis à pena capital. Levantamento de 2008 registrava apoio de 47%. Como se vê o radicalismo da moda, esse que se estende a obras de arte, é condicionado pela rotina da violência.

Uber no fio da navalha
Todas as tentativas de regulamentar o Uber, mesmo pelo Congresso Nacional (a posição do Senado cortou o embalo da aprovada na Câmara Federal) ou assembleias legislativas e câmaras municipais ou ainda prefeituras bateram na trave e nessa quarta-feira, amanhã, ela deve ser testada na maior cidade do país, São Paulo. Como na regulação de Curitiba há aquele dispositivo que obriga o emplacamento local (por sinal que emplacamentos no Paraná em 2017 caíram 1,7% em relação ao ano anterior), o que reduziria a frota à metade e normas como a de obrigar o operador a um curso específico com prova, pagar taxas e até observar normas de vestimenta. As empresas reagem porque se sentem melhor na desregulação. Nos anos 50, tentaram obrigar taxistas, em Curitiba, a usar boné e a classe jogou os chapéus na calçada do Detran num ato debochado de resistência civil.

Questão penitenciária
A ministra Cármen Lúcia foi a Goiás tratar da questão penitenciária, mas acabou não indo, por falta de segurança, ao local dos levantes em Aparecida de Goiânia. Sugeriu-se que ela poderia inclusive vir ao Paraná. Apesar da contundência da denúncia do Sindicato dos Delegados de Carreira para que a OEA (entidade de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos), se pronunciasse sobre a superlotação dos cárceres paranaenses, é visível que a situação nossa, ainda que grave, é de menor impacto do que o ocorrido em outras unidades e mais ainda em face de situações de anomia como a de Natal, Rio Grande do Norte, com a greve de policiais civis e militares.

O secretário de Segurança, em recente pronunciamento, sem qualquer boa notícia para dar em termos de mais vagas nas prisões, afirmou que os policiais que cuidam das distritais são verdadeiros heróis.

Folclore
"Fogo e fúria", livro crítico sobre o presidente norte-americano Donald Trump, parece ter sentido profético, tanto que ontem pegou fogo na residência presidencial em função de uma pane elétrica. Mais fogo do que fúria.

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