LUIZ GERALDO MAZZA
Partido sem escola
Diante da fúria da intolerância, veio essa onda mal formulada da Escola Sem Partido, na verdade, não uma preocupação com possível doutrinação do corpo discente, e sim o empenho de querer mesmo censura, impulso da moda com o pensamento único a permear os juízos de valor até sobre exposições de arte.
Fala-se tanto em escola sem partido quando o defeito mais proeminente do nosso tempo seja o de termos generalizadamente partidos sem escola, isso é, sem doutrina e ideologia, sendo anedótico ver notórios direitistas posando com a sigla de socialistas. Na verdade, os principais partidos brasileiros têm seus centros de formação e de sustentação doutrinária, só que não funcionam, até porque no varejo de suas atividades a prioridade é aquilo que mais praticam com ardor - o desenfreado fisiologismo.
Vejam um dos absurdos: o PSD, não o de agora, mas o criado por Getúlio Vargas para arregimentar a elite de um país ruralizado nos anos 40, levava o timbre moderno, pregador da sociedade do bem estar (welfare state) e designador da socialdemocracia quando se tratava de uma expressão imobilista, conservadora e discretamente oposta ao PTB, que tentava organizar no meio urbano uma legenda para deter o avanço comunista na liderança proletária. Basta lembrar que a Arena do regime militar foi substituída por um simulacro de socialdemocracia, o PDS, Partido Democrático Social, uma inversão de letras na sigla.
Aliás, nessa alteração nominativa do PMDB para MDB, se capta o vazio dessa identificação e a absoluta ausência de escola nos partidos. Afinal, o MDB era uma falange autorizada pelo regime militar a fazer um tipo de oposição consentida. E oposição consentida, convenhamos, é, antes e acima de tudo, oposição sem sentido.
Estamos, pois, diante de uma contradição em termos: falta-nos escola nos partidos e não escola sem partido. Um país, cujo Supremo Tribunal Federal aprova por voto de Minerva que se dê aula de religião em escola pública, é a negação extrema do Estado leigo e democrático.
Maquiavel
Quem diria que nos nossos dias o autor de "O Príncipe", Maquiavel, fosse tão cultuado: ele ensinava que o mal se aplica de uma só vez e a bondade em doses homeopáticas, tal qual se dá no surto de exclusão promovido por Beto Richa e Rafael Greca. Primeiro, a suspensão de reajuste salarial, corte de planos de carreira, aumento da taxação previdenciária, depois as pequenas concessões, como o 13º e dezembro adiantados. Um Maquiavel carnavalesco.
Símbolo
A prisão de Maluf, depois de tanto tempo, é um exemplo da Justiça tarda e falha. Em 1970, conquista do tricampeonato mundial, ele praticou ato notório de improbidade ao presentear cada jogador do escrete com um Fusca. O processo se arrastou e acabou perdendo objeto. Depois disso, houve tantos outros que de repente até causa comiseração e isso apesar da onda punitiva em curso e o sadismo de muitos em ver os outros trancafiados - o homem velho, de 86 anos, apoiado em bengala vagando pelos corredores.
Macunaíma é nosso
Geraldo Alckmin, governador paulista, empenhado em ser candidato presidencial, busca pasteurizar a imagem nessa história de cartéis em trens e metrôs por saber que isso o atinge e a José Serra e Mario Covas, o cardinalato do PSDB. Diz-se vítima das empreiteiras e quer agora vê-las processadas, aquelas que revelaram a composição espúria, com indenizações pesadas como ressarcimento, no momento em apuração de valores a restituir. Não é acidental que seja de São Paulo o líder pregador da Semana de Arte Moderna, Mário de Andrade, criador do Macunaíma, o herói sem caráter, que o Grande Otelo interpretou no filme clássico.
Acordão
Ratificado na quinta-feira na 2ª Vara da Fazenda Pública o acordo entre o cartel dos ônibus de Curitiba e a Urbs, que encerra disputa judicial de quatro anos e que permitirá agora, depois de tanto bloqueio judicial, a renovação da frota. O último aumento tarifário foi tão ciclópico que parece ter compensado todos os alegados desequilíbrios nos contratos. Deformações continuarão, porque é notória na composição do oligopólio empresarial a diferença de porte entre os seus componentes, com os mais fracos não cumprindo obrigações (como adiantamento de vales) e provocando greves com a suspensão dos serviços.
Ademais, o caso de Araucária, que baixou as tarifas, merecia estudo especial da Comec como uma obrigação imperiosa.
Posse
Na posse do novo delegado da PF em Curitiba, Maurício Valeixo, o delegado geral, Fernando Segóvia, assegurou que estarão garantidos os trabalhos da força-tarefa da Lava Jato ao juiz Sergio Moro.
Folclore
Quando inauguraram melhorias na Carlos de Carvalho, Rafael Greca e Margarita, que viajavam como Kennedy e Jacqueline em carro aberto, deu para imaginar que numa das casas próximas, lá do alto, o Candinho Gomes Chagas, dono da Paraná em Páginas, com espingarda de rolha e telescópio, fazia o papel de Lee Harvey Oswald, de olho em todos os movimentos do casal. Nós, eu, que bolei a estória, e o casal, estamos aqui e o Candinho se foi. Faz falta o inimigo de estimação do Jaime Lerner.





