Decifrar o enigma
A Prefeitura de Araucária anunciou na terça-feira que a partir de janeiro a passagem de ônibus, de R$ 4,25, baixa para R$ 2,90, algo que, embora seja da linha da subtração, lembra muito o milagre da multiplicação dos peixes e a do vinho. Esse é o sonho de todo brasileiro: ver, de repente, a tarifa do transporte pelo menos cair, já que gasolina e gás sobem toda semana.

Explicação um tanto tortuosa para o fenômeno: a queda teria ocorrido com o fim da CMTC, a Companhia de Transportes Coletivos de lá, a Urbs com um outro status. Aplicado o auxiliar da lógica ao raciocínio, o silogismo, dá para imaginar o mesmo em Curitiba, que, pelos sinais de enfraquecimento da Urbs, pela venda de seus ativos ao município (já que dos passivos não consegue fugir) e dispensa em massa de servidores com programas de demissão estimulada, talvez haja a notícia não de baixa de tarifa compensada, porém, o informe de que não haverá aumento. Num momento em que tanto Rafael Greca como Beto Richa apostam todas as fichas em programas de exclusão, um sinal contraditório, discreta e aparentemente, de alguma inclusão.

Há sempre algum enigma na exploração dos transportes urbanos, como se vê no Rio de Janeiro, e aqui na caixa preta de mais de meio século de um cartel até hoje não reconhecido como tal, posto que o Cade tenha sido provocado a respeito, ainda que de oligopólio não se pode esperar outra coisa, tudo a exigir uma perícia para que não prevaleça o ponto de vista de uma parte, a dos exploradores do sistema. Não adianta o Gaeco pressionar, o Tribunal de Contas fazer uma auditagem ou a Câmara Municipal montar uma CPI. Nem kriptonita põe em risco tamanha infalibilidade.

Literatura esperada
Prisões da Lava Jato poderão, de repente, enriquecer o estilo de literatura que consagrou Graciliano Ramos em "Memórias do Cárcere", a propósito da saga da Ilha Grande nos tempos da repressão do getulismo no Estado Novo. É que vários de tantos presos ilustres, boa parte deles delatores premiados, imaginam fazer relatos de sua experiência, dentre eles a figura-chave do doleiro Youssef, revelação londrinense nos rolos da Ama-Comurb e das CC5 Banestado e agora no Mensalão e no Petrolão.

Na terça-feira, na liberação de Marcelo Odebrecht, muito lembraram, o que foi relatado em reportagem, do seu comportamento solidário com outros detentos, na oferta de um pouco mais de conforto aos companheiros de desdita. Primeiro a resistência, depois a convicção do já sabido não oferecia alternativa mais ajustada do que a delação, a de maior impacto de todas, embora sem as nuances sombrias e mais aterradoras da JBS.

Num dos relatos, revelam que se comportava como um príncipe, provavelmente um príncipe que, como Hamlet, se dividia, atormentado, em relação ao pais, ambos afinal em algo que lembra Elsinore, na Dinamarca, onde há sempre algo de muito podre como no Brasil. Este um príncipe meditativo, não consorte e sim notoriamente sem sorte.

Brecou de novo
Agora foi a intervenção de um desembargador (Luis Mateus de Lima) que determinou o bloqueio dos procedimentos da Câmara Municipal em relação à vereadora Katia Dittrich, aquela acusada de ficar com parte do salário dos seus assessores. É evidente que a guerra jurídica está instalada e haverá recurso da procuradoria do Legislativo.

Tsunami jurídico
Na segunda-feira, o bloqueio ao processo contra Beto Richa e o habeas corpus em favor da mulher de Sérgio Cabral, Adriana Ancelmo, atos de Gilmar Mendes, eram apenas o início do que viria na terça – um tsunami, com a decisão que proíbe no País as conduções coercitivas. Para Richa, não assenta bem ser beneficiado no mesmo dia em que saiu o habeas da ex-primeira dama fluminense, segundo alguns observadores, todavia não se pode negar o peso das decisões de Mendes, que rompem com a rotina, embora por vezes conflitantes. No STF, tivemos na terça-feira um esgrimir entre Barroso e Mendes, com este insistindo em desqualificar como abusivas as ações do Ministério Público e o outro replicando que há provas nas denúncias da JBS, com a cena espalhafatosa do assessor com a mala cheia de dinheiro correndo nas ruas de São Paulo.

Boa nova
Rafael Greca anunciou uma boa nova: um acordo judicial com o antigo ICI, hoje Instituto das Cidades Inteligentes, em que a empresa, depois de muita trombadas, algumas desencadeadas na gestão anterior, fechou acordo em que grande parte do sistema, dentre as quais 194 operações, são monopólio da cidade. Situação anterior, a de Curitiba subordinada ao monopólio de informações, alvo constante de ameaças de chantagem quando atrasava o pagamento dos serviços, não podia, de fato, continuar.

Folclore
O governo estadual está desmobilizado, tanto que se viu na segunda-feira o absurdo da invasão do Palácio Iguaçu por um grupo de professores. Está certo que a bajulação e o oba oba caem quando o titular viaja e o regra três assume. Mas deixar vulnerável a sede do governo é uma imprudência tão grande quanto a do governador em sua relações próximas com auxiliares corruptos, como os da Publicano e da Quadro Negro, um em arrancada automobilística e outro em viagem, com esposas, ao exterior.

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