LUIZ GERALDO MAZZA
Rompendo a inércia
É surpreendente o grau de impotência de sindicatos e centrais no momento brasileiro, e a sensação de que tudo é possível do lado governista com relação à queda de direitos sociais ficou patenteada na aprovação de tudo que Rafael Greca pretendia em restrições a acessos à saúde e medicamentos em favor de servidores. Um pequeno continente de servidores fez um buzinaço à frente do Legislativo, o que não demoveu a bancada aliada, que aprovou tudo na maior facilidade.
Mas naquele mesmo instante havia no Palácio Iguaçu manifestação da APP, que ocupou o hall e aprontou o berreiro por causa de um edital que fixava salário 13% menor para o pessoal temporário. Aí não houve como evitar a negociação com o chefe da Casa Civil, Valdir Rossoni, e o líder Luiz Claudio Romanelli. Diferença é de R$ 500 na remuneração, e mais parece uma provocação do governo, valendo-se da apatia visível nas centrais sindicais, que deixaram passar o conto da reforma trabalhista.
Com essa manifestação, fica visível que a vigilância da APP-Sindicato é permanente, e como ela aspira representar todos, não poderia ratificar em plena crise, inclusive sem reajustes, qualquer restrição a direitos, gerando uma subclasse salarial. Aliás, essa deveria ter sido a atoarda em meio à pregação das reformas, e num tom radical e de guerra: nenhum direito a menos, mas levando a mensagem a sério, como expressão do inegociável. A cada provocação - e tudo deve ser visto nessa perspectiva -, uma resposta no plano estadual, municipal e nacional.
Aqui, as forças da resistência foram moídas tanto municipal como estadualmente: nenhum bônus nos últimos embates com Beto Richa e Rafael Greca, aumento na tributação, na carga previdenciária e corte absoluto dos reajustes. A vitória esmagadora da exclusão sobre qualquer vestígio de inclusão impunha um sinal de vida e de reação.
A APP-Sindicato tem reunião com o governo nesta terça-feira, às 17 horas, todavia antes faz manifestação. O governo alega que tudo decorre da negociação das dívidas com a União e que está amarrado nessa linha de compromisso.
Temer com tudo
O líder Romero Jucá acha que a gestão Michel Temer sai fortalecida num ano turbulento e pode ter um nome para 2018. Mormente se houver uma eleição indireta com os atuais deputados e senadores que teria o mesmo sucesso do bloqueio às denúncias da Procuradoria Geral da República, e, é claro, com grande negociação de emendas.
Teste
Sabe-se que 2018 será um ano eleitoral desde o início. A ocupação, ainda que parcial, na segunda-feira do Palácio Iguaçu dá bem a ideia do que está por vir. Por exemplo: a insistência, ainda que sobre razões ao governo, na imposição da Meta 4, poderá ser bancada também pela APP, posto que até aqui tenha sido preocupação dos reitores e associações do pessoal universitário.
O governo pode endurecer o relacionamento, e se der mais uma "bandeira" como essa de baixar os ganhos do pessoal provisório, tenderá a recriar condições de arregimentação, hoje sensivelmente abaladas com o corte dos reajustes e tantas outras restrições.
Até tu, Curitiba !
Num acordo de leniência da Camargo Corrêa com o Cade, Conselho Administrativo de Defesa Econômica, a empreiteira revelou que distribuiu propinas em 21 licitações de metrô. Até o fantasmagórico de Curitiba foi referido, posto que não saísse dos papéis.
É bom que o Cade entre no processo dentro de suas atribuições de preservar a concorrência, que a maioria das licitações dribla com notória expertise. A lei que originou o Cade é do senador Agamenon Magalhães, que levantou o problema num país pré capitalista, uma lei antitruste gerada nos debates da Constituinte de 1946.
Sem perícia
O Ministério Público Federal desistiu de fazer perícia nos recibos de Lula em função da firmeza das provas colhidas, incluindo as testemunhais. Às vezes, o relato de um laranja basta, como se deu nesse caso.
Katia julgada
Na quarta-feira, a Câmara Municipal de Curitiba deve examinar o caso da vereadora Katia Dittrich, acusada de ficar com parte dos salários dos assessores. Ela havia obtido uma liminar, que acabou derrubada pela procuradoria do Legislativo. Outros casos semelhantes tiveram a destinação direta ao Ministério Público estadual (ora em ações fortes do mensalinho em Rio Branco do Sul, pago por empreiteira a vereadores, e casos de improbidade em Morretes), situação de três camaristas, já que os supostos prejudicados fizeram a denúncia fora do Legislativo.
Folclore
Havia o temor de que, superado o aspecto mais grave da crise fiscal do governo Beto Richa, como é do seu estilo, voltasse à curtição da "lua de mel com o poder". Essa invasão, ainda que parcial, de instalações do Palácio Iguaçu pelos professores, de certa forma, parece confirmar a desagradável impressão de que o oba-oba voltou com toda força.





