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Há um sonho, para os menos engajados um delírio, do governo Michel Temer: o de obter o impossível ainda que com taxa negativa de credibilidade, muito mais do que a reforma previdenciária, que aparenta difícil, algo mais refinado como a privatização da Eletrobrás e isso em pleno andamento da campanha eleitoral de 2018. Um governo acuado pela hostilidade aberta da opinião pública tenta fazer o seu dever de casa há tanto tempo transferido por todos os seus antecessores e passar da condição de ímprobo, flagrado em ações não republicanas, para a de herói, guerreiro do bem, legionário do mercado.

Eu estava presente na reunião da CIBPU, Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai, em 1953, centenário da província, quando Getúlio Vargas, em discurso, anunciou a criação da Eletrobrás. Aconteceu no salão nobre da Faculdade de Direito de Curitiba e a reação dos cartéis foi imediata. Um dos seus dirigentes, que pescava trutas no Canadá, botou em dúvida tal informe, face ao impacto que isso produzia em relação a uma da maiores reservas de água do universo.

Pois agora, embora com menos de 5% de créditos políticos, Temer se aventura a pilotar um pacote de reformas que mexem com vários tabus nacionais, entre eles a má vontade com as privatizações apesar do ocorrido de Collor, FHC e Lula para cá. Se for bem sucedido nessa tarefa, irá para a história mais por isso do que por causa do seu papo indiscreto com Batista e da mala que o Rocha Loures apanhou e com ela correu na noite paulistana. Por sinal que desde segunda-feira o paranaense é réu no Distrito Federal em função da gincana com a mala.

Se a privatização não emplacar em função da resistência no Senado e na Câmara Federal, mesmo na base do governo, a saída será a venda usina por usina. Wilson Ferreira Júnior, presidente da estatal, argumenta que se isso não ocorrer a empresa ficaria com todos os custos e perderia a capacidade instalada de 14 mil megawatt-hora (Mwh), uma Itaipu.

Demissão em massa
Um dos primeiros testes da reforma trabalhista se deu, pelo menos na opinião de muitos, na demissão de 1,2 mil professores pela Estácio de Sá, segundo maior grupo na exploração do ensino superior. Como o clima até agora é de expectativa quanto à posição manifesta dos juízes trabalhistas contra seus fundamentos, que encaram como inconstitucionais, e com visível paralisia na redução do número de demandas, o fato é visto como um desafio. A Estácio de Sá tentou fundir-se à Kroton, a maior do setor, o que foi impedido pelo Cade, Conselho Administrativo de Defesa Econômica, face ao nível de concentração.

Ainda que haja controvérsias quanto ao fato de a demissão massiva ser ou não um teste à reforma trabalhista, não se pode negar seu efeito impactante e que vai mexer severamente com a surpreendente inércia obreira, aparentemente ainda atordoada com a perda do maná bíblico do imposto sindical, seu nutriente básico.

Divisionismo
Inevitável será o divisionismo nas esquerdas se Guilherme Boulos, do MTST (Movimento dos Trabalhadores sem Teto), formalizar sua candidatura presidencial. Em homenagem aos 20 anos da instituição, houve ato em São Paulo no Largo da Batata, com 30 mil pessoas e um show de Caetano Veloso. No seu discurso, destacou que os intolerantes no Brasil finalmente saíram do armário, como se o seu papel de agitador social também não fosse esse, mais do que nas falas, na ação desencadeada em várias ocupações, como as de São Bernardo (7 mil famílias) e a de Itaquera. Candidato do Psol, como alternativa a Lula, arregimenta e atrapalha.

Otimismo
Segundo a Fiep, Federação das Indústrias do Paraná, são ótimas as expectativas para a economia em 2018: 63,17% dos empresários acham que a situação melhora de forma substancial e apontam para sinais como a queda da inflação, sinais de reação na área industrial, no nível de emprego e na previsão de avanço no PIB e, ainda, sem dúvida, a importância da queda dos juros. Se somado tudo isso à admissão das reformas, teremos, de fato, perspectivas boas.

Ofensiva
Ofensiva tributária, tanto a de Beto Richa quanto a de Rafael Greca em pleno vigor: o ISS para planos de saúde subiu de 2% para 4%; já para eventos e shows caiu de 5% para 2%. Ocorre que a filosofia da prioridade à saúde, agora desrespeitada, foi a causa este ano da interdição da Oficina de Música. Dirigentes dos planos avisaram que os custos sairão por conta dos segurados. Festejaremos tudo isso com shows mais baratos. Câmara Municipal aprovou ainda a compra dos terrenos da Urbs pela prefeitura, um tentando salvar o outro do buraco.

Folclore
No aniversário de 20 anos do MTST, o povão melhorou, em termos criativos, sua oposição a Michel Temer, saindo do batido "Fora, Temer" para o "odeio", valendo-se do refrão da música de Caetano Veloso e completando-o. Mais pontos no mercado.

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