De vítima a algoz
Pela votação inconclusa do STF anteontem, percebe-se que a imunidade parlamentar, indispensável para conter os arbítrios do Executivo na origem histórica sofreu, em nosso caso, uma reversão com os limites impostos ao foro privilegiado por 8 dos 11 ministros: de vítima constante dos que detêm o poder, deputados e senadores, agora em aliança com o Estado, se transformaram em algozes. Pelo menos, é a descrição nítida do caso brasileiro com a evidência das articulações intraministeriais com estatais na prática da corrupção para financiar carreiras de políticos.

Possivelmente, com a mudança de entendimento, 90% das ações se deslocarão para instâncias inferiores e o ritual procrastinatório, até aqui sacralizado, que levava as decisões ao infinito e rumo à prescrição, será finalmente detido. Só aqui no Paraná temos inúmeros casos de pura blindagem dos infratores como nos do Ezequias Moreira, aquele que pagava a grana da sogra fantasma, e do ex-presidente da Assembleia, Nelson Justus, isso sem falar em outros ora amparados no mesmo guarda-sol.

O desdobramento cênico dos paradigmas da Lava Jato (no Rio de Janeiro, a cúpula do poder e seu banco de reservas permanecem presos e a cada momento um novo integrante da equipe é devidamente guardado, já em São Paulo ficam amarrados os eventos de metrôs e trens porque são julgados por critérios anteriores) e a pauta de Curitiba continua carregada como se viu na audiência do ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras Aldemir Bendine..

Mais embaixo
A expulsão da senadora Katia Abreu pelo PMDB sugere que o mesmo pode se dar com Requião, já que o senador paranaense incide nas mesmas infrações relativas à posição do partido e sua fidelidade a Michel Temer. Aí, entra a ironia de Roberto Requião perguntando se tem sentido ser julgado pelos enquadrados pela Justiça como Romero Jucá, Geddel Vieira Lima, Moreira Franco, Eduardo Cunha e Sergio Cabral. Percebe-se que também o histórico de Requião é mais longo e que já registrou a sua expulsão quando empreendeu a campanha contra Orestes Quercia e acabou revertida, mas evidenciando que o político paranaense colocaria a direção nacional do PMDB sob intenso constrangimento, como se dará agora.

À época do "Disk, Quércia", percebeu-se que o então governador tinha mais espaços do que agora e tudo isso facilitou a inevitável recomposição. Hoje, muito ligado a Lula e fascinado para dar esse embalo ideológico em sua carreira, acabaria fascinado com essa identificação, tanto ele quanto o ex-presidente como vítimas do "sistema" que os persegue. No PMDB local, os adversários, ainda que cheios de razão contra o seu centralismo autoritário, não têm a mínima expressão eleitoral para confrontá-lo. Se o cerco da direção nacional persistir Requião terá tudo para dar um tom épico a esse enfrentamento, jogando o peso da opinião pública contra a falange da propina.
De um lado, explora a Lava Jato, pela qual não tem lá muitas simpatias; de outro, busca uma identificação heroica ante o martírio de Lula como se a matriz ideológica os aproximasse.

Da prisão
Todo mundo se mostrou espantado com o fato de o deputado presidiário Celso Jacob ter sido flagrado com dois pacotes de biscoitos e queijo provolone escondidos na cueca ao retornar ao xadrez. Mas fácil nas penitenciárias é chegar com telefone celular, arma e drogas sem que isso espante. Pois agora uma ação da polícia em Cascavel detectou que o comando de uma operação de tráfico em larga escala era comandada por um preso em cadeia de Foz do Iguaçu.

Marcou posição
Até aqui o senador Alvaro Dias criou poucos fatos políticos em sua agenda presidencial, o mais bizarro deles o da dobradinha Romário-Bebeto. Sua participação no projeto que discute o foro privilegiado, em andamento à frente da decisão do STF, anteontem interrompida mas com números fortes pela limitação, é deles todos o mais relevante. Até porque é possível que o conflito intrapoderes, mais do que evidenciado, surja aí também se o Congresso não souber se valer da suspensão do julgamento para mudanças drásticas no texto relativamente ao foro por prerrogativa de função. Se o parlamento não ocupar o espaço para legislar, especialistas acreditam que o Supremo Tribunal Federal certamente o fará em nova mostra de ativismo, afinal uma característica forte do nosso tempo.

Katia
As atas com os depoimentos dos assessores que denunciam a vereadora Katia Ditrich já foram entregues à acusada de ficar com parte dos seus salários para efeito de defesa. Curiosamente, um setor mais sofisticado da política nacional está sendo acusado de agir do mesmo "modus operandi": o de ficar com parte ponderável das remunerações. Geddel Vieira Lima e seu irmão, parlamentar, são acusados do mesmo tipo de procedimento. O pior é que os Vieira Lima botaram a mãe na parada em cuja casa faziam as partilhas de grana. Ao menos, no relato de delatores.

Folclore
Maitê Proença, empolgada com a ascensão do seu time, o Botafogo, prometeu dar uma de Frinéia e ficar pelada em honra ao time se ele fosse campeão. Aí, num programa global de TV que fazia com amigos foi cobrada e driblou-os com as artes de uma diva. Já a cobrança pela subida do Paraná à Série A é feita em cima de um banho, prometido por alguém, no Rio Belém que passa ao lado do Estádio Durival de Brito.

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