LUIZ GERALDO MAZZA
Fim da inércia?
Em dois dias, tivemos em ônibus metropolitanos na capital cenas sequenciais de violência e, diante da frequência, a área de segurança resolveu reagir, convocando todos os segmentos interessados na solução do problema. Antes que tivéssemos aqui um embrião da Rocinha, fez-se a convocação de órgãos ligados ao tema como Urbs, Comec, cartel do sistema e variadas dependências da polícia. Pelo menos, está rompida a inércia, vista por muitos como indiferença como se o caso dos ataques aos ônibus, tivesse um caráter insolúvel como o da pobreza e os marginais que gera em progressão geométrica alimentada pelo tráfico.
No episódio de Botiatuvinha, em relação ao de anteontem, pelo menos houve prisões dos que tentaram ocupar o ônibus e submeter seus passageiros ao terror. É, aliás, a forma de terror com que nos defrontamos para as quais as soluções repressivas, tal qual se vê no Rio de Janeiro, são insuficientes, mesmo com o emprego das forças armadas. Por sinal que, aí normalmente o governador e seu estafe insistem em fazer analogia entre o nosso caso e o dos cariocas. Não há propósito, mas para afirmar que nosso ajuste fiscal deu certo faz-se a comparação indevida quando a implosão do Rio se deve à má gestão e a cultura do populismo ao longo do tempo, nutrida à corrupção. Seria o mesmo que a oposição comparasse Beto Richa, nos transbordamentos éticos, a Sérgio Cabral, hoje a expressão maior da improbidade brasileira, quando tal analogia não tem o menor sentido até porque os atos sob investigação do nosso governador são ainda pré-indiciários e os do carioca são veementes no acervo probatório.
Beto, portanto, não é Sérgio Cabral e Curitiba, pelo menos por enquanto, está bem distante da Rocinha.
Medidas em ajuste
Conclusão da reunião de ontem sobre a segurança no transporte coletivo: Guarda Municipal e Polícia Militar, esta supletivamente, darão apoio logístico nos terminais e ao longo do sistema; dez empresas já adotaram as câmeras e pretende-se em trinta dias um aparato on-line, que é a aspiração básica de cobradores e motoristas. O raciocínio de que o uso de bilhetagem eletrônica não é suficiente para afastar marginais que vão atrás de celulares e outros pertences dos passageiros está certo, mas a padronização melhoraria a prevenção. Observação de que há mobilidade nas ações dos delinquentes é correta, mas que não encontrou resposta equivalente da atuação repressiva. O diagnóstico é bom, mas a terapia não apareceu.
Assimetria gritante
Seis ricos têm como patrimônio o equivalente ao acumulado por cem milhões de pobres. Isso não é cenário de país africano, mas do Brasil e ficamos teorizando sobre avanços do lulopetismo no tema. O governo, já se sabe, não é solução para a causa e sim o problema, o maior por sua notória incapacidade de gerir conflitos e impor a ordem e por seus ocupantes estarem denunciados como um quadrilhão.
Falta agora um cálculo: que milagre se operaria no país se os bilhões da corrupção fossem transformados em investimentos?
Lixo, prolixo demais
Acertar as questões do lixo é um drama. Cada hora um empecilho, administrativo ou judicial. Os interessados se digladiam e brecam as coisas na Justiça ou no Tribunal de Contas como agora. Como se percebe, a questão desperta interesses, mas é prolixo demais na perspectiva da burocracia engenhosa.
Superlotação
Persiste, como no caso dos assaltos a ônibus, a incompetência do governo para enfrentar a questão da superlotação dos presídios. A liberação de distrital em Almirante Tamandaré, por ordem judicial, foi dissimulada e o Sinclapol está denunciando que carceragens desativadas em Curitiba e interior voltaram a ser ocupadas. De outro lado, o discurso permanente do governo é o de que está construindo nove penitenciárias novas quando só há uma e ainda em obras.
Mistério
Em discurso no Conselho Nacional do Ministério Público, a procuradora Raquel Dodge colocou a harmonia entre os poderes como fundamento da estabilidade e mostrou-se preocupada com o avanço de correntes totalitárias no país. Dá a impressão que a disputa entre os grupos dela e do ex-titular, Rodrigo Janot, que venceu a última eleição interna, permeia tudo. Aliás, um denunciante (da Procuradoria) contra Janot afirmou que o cerco em Michel Temer visava impedir a posse de Raquel Dodge, como se essa fosse a prioridade de tudo, o que parece nada razoável e coloca a luta intestina corporativa acima de qualquer objetivo. Eufemismos demais confundem não apenas o público interno, mas a sociedade de um modo geral, mesmo que haja brilho nas metáforas e sutilezas.
Folclore
Quando queimam ônibus, a polícia, por sua hierarquia, diz que se trata de modismo como hoje é encarada a guerrilha de marginais nas várias linhas de Curitiba e metropolitanas. Ação de governo precisa de diagnóstico, mas sem terapia, ele é aparatoso e inútil. Lembra uma lição de minha mãe, quando não havia sobremesa ela expressava a questão conceitual: "A sobremesa é o derradeiro bom bocado". Falta a dita, mas persiste o conceito, a definição.





