Tudo sob risco
Celebração ontem do meio ambiente serviu para mostrar que a postura agressiva do Paraná precisa ser detida porque apoiada no governo e instituições ligadas à produção: não bastasse o fato de a derrubada da Mata Atlântica ter alcançado 74%, há ainda o "pragmatismo" dos que pretendem, por exemplo, ampliar níveis de exploração de áreas contidas e protegidas com apoio parlamentar na região dos Campos Gerais
A linha doutrinária dominante das proclamações foi justamente contra esses dois fatos incontestes e mormente o da derrubada, uma das maiores do Brasil, da Mata Atlântica como se já não bastasse a ação governamental, reincidente específica e genérico de delitos ambientais, sempre praticados em nome do progresso na infraestrutura de transporte ou portuária, como se pretende ainda agora com os tais acessos aos portos de Antonina e o de Pontal do Sul.
Temos um testemunho histórico na Serra do Mar naquele absurdo do plantio de pinus eliotti tocado por um paranaense que naquele momento presidia justamente o IBDF (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal). Foi preciso a reação do geólogo João José Bigarella acionando toda a comunidade científica para que o abuso fosse denunciado. Uma das fortes dramatizações do professor, com vários estudos a respeito, inclusive sobre os sedimentos de fundo da baía que tinham origem em processos de degradação nos rios do planalto, previam a inutilização de todo aparato portuário e a inviabilidade da navegação.
Nem sempre os abusos foram detectados como se deu com o próprio Parque Estadual de Vila Velha, sede do Departamento de Produção Vegetal do Estado, transformado, a despeito da sua condição de área de proteção em unidade experimental da aclimatação e aproveitamento da árvore, então de escasso conhecimento. É que sua exploração intensiva se deu nos anos 60, século passado, apoiada em programas de reflorestamento e hoje tida como invasora e alvo até de extermínio pelos defensores radicais de espécimes nativas.

Jogo pesado
Daqui pra frente, predomina o jogo pesado nas disputas da Lava Jato e congêneres como se viu ontem na audiência de Pedro Correa com advogados de Lula tentando, outra vez, na base da provocação, tirar o equilíbrio do juiz Sérgio Moro sob o fundamento de que houvera protocolo de um documento de desconhecimento da defesa o que a levou a pedir ao Tribunal da 4ª Região a anulação do procedimento, o que não foi atendido e com o prosseguimento normal da audiência. E num plano mais geral a defesa de Michel Temer acusou Janot de constranger o TSE às vésperas do julgamento da chapa.
Além disso – e dá para ter uma ideia das armas mobilizadas no conflito -, deputados da base aliada na Comissão de Constituição e Justiça formalizaram um pedido de explicações ao ministro Edson Fachin sobre sua relação com Ricardo Saud, lobista e delator da JBS, o que aí sim tem toda a característica de coação contra o STF. O pior para o ministro Fachin é que aparenta estar um tanto isolado no colegiado.
Quem espera o fim do mundo, certamente, não haverá como parecia ocorrer com as delações premiadas da Odebrecht que se tornaram colegiais diante da havida pela JBS e que atinge o coração do poder, ainda mais ilustrada com a cena rocambolesca da mala. É quase certo o pedido de vista do ministro Maia Filho, o que é perfeitamente possível diante da aguda complexidade da matéria jurídica fora da leitura política. Maia Filho aparece em discreta referência da Lava Jato.

Nepotismo
Nas duas eleições de domingo tivemos atos de nepotismo: na de Guaraqueçada o filho do prefeito cassado foi eleito e na de Moreira Sales a mulher do burgomestre perdeu. Tadeu Veneri tentou emplacar legislação proibitiva no Paraná e que acabou rendendo, no Guairão, a maior vaia a um político da terra, o então governador Requião, e isso diante do venezuelano Chávez. O parenteralismo é uma de nossas deformações: nem sempre o público faz como o de Moreira Sales derrotando o protegido (isso aconteceu em Maringá com Sílvio Barros, irmão do ministro Ricardo que tem ainda a mulher, Cida Borghetti, como vice-governadora e candidata provável à reeleição e a filha deputada estadual Maria Victória, um caso clássico de oligarquia. Requião, que agora conseguiu eleger o filho deputado estadual como já fizera o irmão Maurício federal e não conseguiu emplacá-lo no Tribunal de Contas, acatado num primeiro momento pelo Tribunal de Justiça, argumentava que seu caso era de nepotismo esclarecido, uma adaptação conveniente do histórico "despotismo esclarecido". No caso de Ricardo, o filtro eleitoral é mais importante do que encher de parentes o secretariado como faz, em escala bem mais reduzida, o Beto Richa.

Folclore
O senador Roberto Requião sugere que seu ex-assessor, hoje de Michel Temer, Rocha Loures abra a alma. Até agora o que ele abriu foi a mala, anverso de alma como também de lama.

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