LUIZ GERALDO MAZZA
Hora da provocação
Em nome da austeridade fiscal tudo se justifica, mesmo quando o governo em ações eleitorais nos surpreende com a cornucópia da liberação de fortunas aos municípios que estavam em barragens burocráticas (ICMS devido e recursos hospitalares), com a mexida na hora-atividade do professorado que tem tudo de uma provocação, um espécie de teste aos sempre engajados sindicalistas da área, ora atingidos pelo bloqueio ao reajuste salarial automático e compensado pelos atrasados em promoções e progressões.
Se é provocação, que naturalmente terá respostas conhecidas, é porque o governo teria afinal enxergado que pode encarar greves com o mínimo apoio a disposições como o de não pagar dias parados que fulminou em São Paulo a última rebelião e que aqui, como se sabe, nunca foi testada, o que inclusive concedeu essa suposta força à APP, já que historicamente entregou os pontos ao adversário que se recusava a combater. Na raiz dessa decisão de mexer no conceito e valor da hora-atividade tem tudo de um teste para o qual o governo, em sua linha radical de restrições fiscais, teria a resposta forte, contundente, como já foi a de submeter a categoria ao corte do reajuste por uma suposta preferência dos seus integrantes pelos atrasados milionários da promoções e progressões escamoteados ao longo do tempo. Claro que esse tipo de pendência, pelo que tem de viés doutrinário, permite um discurso mais rico sobre essa abertura ao preparo das aulas, normalmente negligenciada, do que o pão-pão, queijo-queijo do embate salarial.
Como tem certeza na eficácia do aparato dissuasivo de que dispõe, ao dar mais uma traulitada no sindicalismo demonstraria força que também conteria outras organizações, aquelas de menor poder beligerante e que mais atuam como linha auxiliar, como fez nas duas últimas negativas de cumprimento da lei do reajuste automático, deixando os contendores sem qualquer meio de reação. Obviamente, essa apreciação desconsidera a hipótese de um plano B da parte dos sindicalistas que hoje, em autocrítica, devem ter percebido que se perderam no exercício de uma soberba decorrente da omissão governamental e não do seu suposto poder de mobilização e o defeito também da contaminação pela via política do petismo do poder.
Ao dar tais mudanças como fato consumado e ligadas à austeridade fiscal nos seus comunicados, evitaram o blá-blá-blá do diálogo e acreditam ter desnorteado o adversário já abatido com o corte do reajuste, mas nutrido pelos atrasados de tantos anos. Se tivermos arregimentações como a de abril, urge saber qual o plano B do governo para evitar um novo massacre que liquidaria de vez com a candidatura senatorial do governador, hipótese até que pode ter sido considerada, como se já se propala nos meios políticos.
Metáforas
Vereadores de Foz do Iguaçu presos tomaram posse e retornaram ao xadrez: a maioria dos políticos deveria estar nessa condição e não sai de uma cadeia de tevê a sugerir saídas para o Brasil.
Revisão
Essa, sim, embora atrasada, é medida urgente de política criminal: por orientação do Conselho Nacional de Justiça serão feitas no Paraná revisão das prisões e respectiva urgência de 10 mil detentos, decorrentes da exasperação do combate ao tráfico que faz a superlotação das nossas penitenciárias e cadeias. Verificou-se que, dentre esses presos, havia muitos que não tinham sequer antecedentes criminais, razão pela qual não poderiam, com um mínimo respeito ao espírito da legislação, ficar junto com criminosos de maior potencial ofensivo e, ainda por cima, vinculados às facções terroristas .
Aposta frágil
O prefeito de Curitiba, Rafael Greca, acha que tem a solução na questão do transporte público ao substituir Urbs e Comec, órgãos concedentes, por uma agência reguladora. Se tivesse noção de como funciona a do Paraná, despojada de quadros técnicos pela tesoura fazendária, veria a fragilidade da alternativa e a inocuidade de sua atuação. De outro lado, tanto a Urbs como a Comec tem outras funções institucionais, além do transporte, na regulação de espaços públicos para comercialização e detém o know how mais importante da área em conhecimento acumulado, ainda que mostrando precariedade política e técnica nas relações pactuais estabelecidas ao longo do tempo.
A reguladora pode vir como fato novo para reciclar tais relações, mas o certo é que será inevitável um reajuste considerável da tarifa, o que implicará num impacto forte, um exocet, na até aqui intocável nau do prefeito, mais navegável do que aquela histórica dos 500 anos.
Folclore
A Ordem dos Advogados do Brasil, seção estadual, denuncia que malandros estão usando seu nome para arrancar grana dos incautos. Só falta agora uma interpelação latina da valente entidade ´´Qui prodest?´´ (a quem interessa?), daquelas a que Requião sempre recorria.





