Reação mínima
O decálogo constante das medidas pleiteadas pelo Ministério Público integravam um projeto de lei de iniciativa popular com mais de dois milhões de assinaturas. Tratava-se, portanto, no espírito da democracia direta, contemplada pela Carta de 1988, de matéria submetida a uma espécie de referendo parlamentar e, obviamente, como já se esperava, dado o fato de boa parte dos parlamentares se encontrar envolvida nas tramas da Lava Jato, desfiguraram a proposta, ainda que alertados sobre dispositivos como o da anistia ao Caixa 2 que seriam fulminados, com a maior naturalidade, no Judiciário.
Vivemos uma época diferenciada nos choques entre poderes (a partir do ativismo Judiciário que emerge da omissão parlamentar e agora em aberto conflito em relação a atitudes que lembram, pela agressividade, uma contenda retaliatória) e na qual não espanta o fato de poderem se tornar comuns bate-bocas entre magistrados como já se deram, ao tempo do mensalão, entre o presidente Joaquim Barbosa e seu revisor Levandowski e agora, recentemente, entre este e Gilmar Mendes. É como se a crueza do jogo da verdade a todos expusesse de uma forma incontrolada. A hora exige reações rápidas como a do presidente e dos chefes da Câmara e do Senado contra a anistia do Caixa 2 para se mostrarem, de alguma forma, sintonizados com a reação e o inconformismo das massas, depois daquele mediação patrimonialista no episódio vergonhoso de Geddel Vieira Lima, o sexto caído em meio ano.
A reação ontem, em entrevista coletiva, dos integrantes do Ministério Público Federal, os artífices da Lava Jato, condenando emendas que desfiguravam a inteireza do projeto apoiado por milhões de brasileiros, é também decorrência dessa instantaneidade que marca o momento brasileiro. O debate, a reação e o desforço imediato, indispensáveis na pulsação dos acontecimentos é uma reação aos que pretendem, de forma solerte ou escancarada, impor um estado de anomia, nutrido na baderna e no terror, como se viu anteontem em Brasília, para aprofundar o caos tão explícito no quadro de recessão e descaminhos institucionais.
E nesse contexto a ameaça de a força-tarefa tirar o time por discordar de emendas é recurso dramático demais pelo menos enquanto pode intervir na tramitação parlamentar. Situações adversas têm que ser encaradas como normais (como os procedimentos derrubados em juízo no segundo grau e os bloqueados no primeiro) e se a luta contra a corrupção vale tudo, pode-se certamente exercê-la sem soberba e prepotência com pretensão à infalibilidade.

Receituário
Apesar de medidas implementadas para impedir que abusos com agrotóxicos transformem os nossos alimentos em alto risco sem falar no comprometimento do meio ambiente foi possível detectar que 27% dos produtos, levados à mesa dos brasileiros, continham excesso de veneno em padrões incompatíveis com as regras mínimas de sanidade. No governo José Richa, com a agricultura sob o comando de Claus Germer, tivemos um período de intensa cruzada e pela imposição do receituário agronômico ao lado de medidas de proteção às microbacias. Foi uma fase – hoje nada, absolutamente nada, se faz em termos programáticos - e as secretarias de Estado nada produzem em termos de planejamento e inovação, tanto que quando se anuncia a extinção ou absorção de uma delas pouco haverá a esperar.

Reforma
Há alguma reforma administrativa, digna do conceito, em andamento como essas tímidas enunciadas? Obviamente, não. O problema não está em recuperar algumas centenas de milhões de reais quando se tem uma folha de pagamento superior a um bilhão e meio a cada mês. Não existe uma filosofia, um conceito, que vise dar ao monstrengo, que é a máquina estatal fornida, um mínimo sinal de eficiência. Cortar na carne é preciso e isso implica em redução drástica da máquina que, com o número de pastas que tem, seria milagroso que viesse a funcionar. Alterações pontuais, como as indicadas no recente pacote, são até saudáveis, mas insuficientes em seu alcance. Uma cirurgia plástica no ordenamento adiposo e que alcance todos os poderes é indispensável.

Papo manjado
80% das empresas do transporte coletivo tinham honrado suas obrigações com a primeira parcela do décimo terceiro e afastavam, portanto, na maioria delas, a greve por falta de pagamento, mas como é da tradição, e isso porque se aproxima a data da revisão do contrato coletivo, dentro de três meses, há a choradeira empresarial do desequilíbrio financeiro e que as tarifas não respondem aos custos operacionais. Como há transição para um novo governo, o cartel se vale da circunstância para reanimar demandas que jamais serão resolvidas enquanto não ficar claro o que houve na última licitação, colocada sob suspeita tanto na CPI como na auditagem do Tribunal de Contas, bem como não se esclarecer a anatomia do sistema que cria satélites organicamente fracos e que provocam os desequilíbrios, como se vê no caso metropolitano de Araucária.

Folclore
No restaurante a cliente pergunta e o garçom responde:
-Pirarucu?
-Tiraram, sim senhora.

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