LUIZ GERALDO MAZZA
Paixão enlouquecida
A queda do avião com os jogadores da Chapecoense tirou o sentido de qualquer outra notícia pelo peso e densidade da tragédia, o que poderia levar, pelo aproveitamento do pasmo, a maioria parlamentar a aprovar a emenda salvadora da anistia do Caixa 2. Assim, ao mesmo tempo em que o país, e mais do que isso o mundo, se curvava ao evento, dando-lhe em todo o noticiário o relevo merecido, o mau caráter da classe política se expunha em todo o seu vigor nas tratativas congressuais em que pese o alertamento do triunvirato, formado pelo presidente da República e os dirigentes do Senado e da Câmara, de hostilidade formal à medida, no empenho em responder ao uivo das ruas e imunizar-se ao desgaste que alcança, sem exceção, toda a fauna.
Em meio a uma tragédia, outra se impunha na resistência aos esforços para o combate à corrupção sistêmica que mina, há tanto tempo, o Brasil e que tem pela vez primeira uma sinalização efetiva de um projeto de reversão que está a botar os criminosos do colarinho branco na cadeia, algo impensável para os nossos padrões e, principalmente, pelo enorme percentual do PIB latino-americano envolvido.
O momento de dor não elide os padecimentos de outra natureza, que nos cercam e expressos na ameaça ao mínimo de padrões civilizatórios do exercício da convivência social e política por tudo aquilo que define um estilo nosso, cujo aspecto externo de pantomima não dissimula seu traço patológico e de vocação autodestrutiva, de fácil diagnóstico e de cura distante.
Tragédia tem o impacto da ruptura, o despertar para o sentido da vida, a pulsão solidária e da fé, a coesão do coletivo, já essa outra rotina da qual não nos livramos em nossas práticas do cotidiano alerta para uma função missionária dos ainda não contaminados.
Como os mais agudos existencialistas proclamavam, a vida é uma paixão enlouquecida e encará-la uma decorrência do fato de que somos condenados à liberdade e ao fadário como o de Sísifo a subir a montanha, levando a rocha às costas.
Oscilação mínima
A economia paranaense não é mais a quarta do Brasil em renda interna, todavia, isso não deve espantar pela circunstância de que nós como o Rio Grande do Sul desde os anos 60 do século passado, quando ainda vivíamos a intensidade do ciclo cafeeiro, ficamos quase num mesmo patamar próximo de 6% do PIB nacional. É bem possível que a oscilação nos beneficie já em 2015, todavia, a distância será mínima como a de 2013 de dois décimos percentuais.
Como os governos têm o mau hábito promocional de apropriar-se de indicadores sociais e econômicos, é urgente refletir como é que estados, estruturas quebradas sob o ponto de vista fiscal, como Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, continuam potencialmente fortes? E Minas Gerais, a terceira do ranking, como está de saúde e mesmo São Paulo, a primeira, com dívida ciclópica para a União, como respira?
Uma coisa é a soma da produção, outra a do desempenho de estados. O tsunami que vivemos passará porque se isso não acontecer soçobraremos certamente. A próxima oscilação pode nos favorecer e, por essa razão e por medida de economia, não joguem fora os institucionais produzidos e que saudaram a conquista do quarto lugar. Continuam válidos como ideia-força e ajudam a motivar como se dava com aquele de Paulo Cruz Pimentel que enunciava, em 1965, o Paraná como segundo estado do país, utopia que afinal embalava.
Greve-locaute
Greve de motorista e cobrador de ônibus lembra o ornitorrinco australiano que bota ovo, tem pelo e pena e é mamífero, um híbrido radical. É que essas greves têm tudo de locaute porque interessam mais aos patrões do que aos empregados. O patrão alega não ter grana pra pagar adiantamento ou décimo terceiro, como se dá agora, e aí o sindicato obreiro faz greve com o que ajuda o patrão a firmar a tese de que está rompido o equilíbrio financeiro do contrato.
Ainda ontem membros do Ministério Público do Trabalho se reuniram com sindicalistas dos dois lados e com a Urbs em debates sobre o que não podem definir, enquanto não se fizer a radiografia do sistema a partir da suspeita licitação, a última, na qual o Gaeco está de olho. Curitiba é refém de algo que exige mais profundidade até porque empresários daqui, que atuam em outras praças, estão envolvidos até o pescoço em denúncias. Como se não bastasse, já ameaçaram devolver as concessões à prefeitura confiando na interpretação da sua equipe de advogados de que venceriam, de qualquer jeito, a demanda. Dá-lhe, Gaeco!
Folclore
É nosso adágio, suportar o pedágio. É uma rima, mas como dizia Drummond de Andrade, e não uma solução. A agência reguladora anunciou a alta das tarifas: 4% na Ecovia, 13% na Caminhos do Paraná. Insisto que o usuário deveria erguer o braço ao passar pela praça, como se estivesse sendo assaltado, o que é melhor do que abalroá-la como fez Romanelli quando era líder do Requião para mostrar-se fiel à causa do ´´baixa ou acaba´´ que, como se sabe, nem baixou e muito menos acabou.





