LUIZ GERALDO MAZZA
Pinguela sustentável?
Fernando Henrique Cardoso, ao fazer a análise da situação brasileira, antes do episódio Geddel-Calero, valeu-se de metáfora para definir a ponte que sustenta o governo Michel Temer para a travessia: "É uma pinguela, mas é o que temos". Depois do vexame daquele envolvimento de toda cúpula do governo numa mesquinharia de tráfico de influência, nem pinguela temos.
Para reconstruir a "ponte", se produziu aquela cena que dá bem a medida do Brasil atual do triunvirato da sucessão presidencial - Temer, Renan Calheiros e Rodrigo Maia - tentando convencer a patuleia de que é contra a anistia dos beneficiários do caixa 2 entre os quais podem até figurar. A forma como se apresentaram, sem gravata, tem tudo de produção marqueteira para insinuar liberdade, descontração, o que sabidamente é uma impossibilidade e contradição em termos ante a notória postura anterior que presumia acordo com a manobra espúria. Isso ficou nítido quando Michel Temer afirmou que respeitaria o juízo do Congresso e, em seguida, que vetaria tal dispositivo, pendular como é em quase todas as questões.
Essa afirmação em grupo não é suficiente para uma limpeza geral, uma ablução reparadora, mesmo que feita com água benta da fonte de Lourdes. Com essas credenciais, é impossível que a pinguela que temos nos garanta a travessia, o que é alegado pelas classes conservadoras que enxergam nesse apoio o único dos rumos a tomar. Felizmente, para contrapor-se à unanimidade desejada pelo capital, há a reação daqueles que expressam o campo do trabalho com temores de perderem com a transição o pouco que ainda lhes resta;
A pinguela é precária demais para qualquer avanço rumo à normalização: a cada hora, a cada minuto, há algo conspirando para retirar o mínimo de credibilidade na suposta missão.
Governo nulo
Tudo bem: o ajuste fiscal exige o corte do reajuste salarial dos funcionários, mas quem garante que tais recursos se transformarão em investimentos para melhorar, por exemplo, a área de segurança? Ontem, repetindo-se o que houve dias atrás no Shopping Curitiba, com três homens armados limpando as Lojas Pernambucanas pela manhã, dois marginais levaram 30 celulares e saíram a pé da mesma loja, a da Praça Tiradentes, evidência clara de inexistência de governo que se repete na explosão de caixas eletrônicos e no varejo dos arrombamentos, assassinatos, sequestros e roubos de carros.
Para se ter uma ideia da inexistência de governo, basta atentar para a denúncia desta FOLHA de que só no âmbito escolar tivemos nada menos de 11 mil ocorrências criminosas, dentre as quais aquele assassinato numa ocupação em Curitiba. Aí, se juntam duas omissões e de duas áreas das responsabilidade estatal, a da educação e da segurança. Pra que serve o governo? Para posar como fez ontem ao sancionar a LDO que tanto ambicionava como se estivesse praticando um ato de purificação religiosa. No mesmo instante, uma creche em São José dos Pinhais era assaltada e roubados seus equipamentos como computadores.
Moro, bem e mal
Até agora, por questões óbvias, Sérgio Moro é olhado pelo ângulo positivo, mas começam a ser divulgadas suas derrotas, algumas como a de dois executivos da OAS, cheias de dramas, porque um dos acusados, mais tarde absolvido, chegou a ter depressão na prisão. Tal se deu no Tribunal da 4ª Região. Também foram listados os casos de denúncias que bateram na trave e não prosperaram. Prejudicados como um dos executivos liberados, que em função do ocorrido, se separou da esposa, poderá obter reparação. Nada a ver com excessos de autoridade, mas eventuais falhas da Justiça que podem e devem ser demandadas pelos prejudicados.
Muitas das decisões da primeira instância podem ser revistas tanto no Tribunal da 4ª Região como no STF ou STJ. Não custa ser paciente, pois a cruzada contra a corrupção endêmica vale a pena até por testar em profundidade o chamado duplo grau de jurisdição. A ação de Sérgio Moro no caso CC5-Banestado foi incompleta, tanto que Yousseff voltou a agir com toda a desenvoltura na Lava Jato, apesar de haver se comprometido em não mais agir como doleiro. Juristas entendem que isso o impediria de valer-se novamente de delação premiada e que tal poderia gerar nulidade de todos os atos subsequentes, o que não ocorreu.
Uma lição
O povão da Cidade Industrial deu uma lição na autoridade: a rua Cidade de Campos Novos havia sido recapeada em setembro, mas não se cuidou da sinalização. O povo comprou tinta e apetrechos e providenciou a afixação do alertamento de "pare" na pista de rolamento, afinal uma intervenção altamente educativa e produtiva .
Folclore
O Paraná fez um escândalo quando em 2013 passou o Rio Grande do Sul em renda interna, mas a gauchada em 2014 voltou ao quarto posto com 6,2% contra 6%, segundo o IBGE. A oscilação sempre foi mínima, isso desde 1949, quando figurávamos em quinto. De repente, o governo usa o fato negativo para justificar o garrote no funcionalismo. Só que o Rio Grande do Sul está em situação fiscal pior do que a nossa. Vamos esperar os números de 2015, quem sabe dê oba oba outra vez. Merecemos?





