Cabo de guerra
Não dá mais para dissimular a escaramuça entre os poderes Legislativo e Judiciário. Essa referência é a nacional, não a menor, da aldeia. Antes ela se dava, diplomaticamente, numa disputa de raios de autonomia e isso porque, em função da omissão parlamentar, a Justiça ingressou numa etapa de ativismo em que substituía ou melhor preenchia missões específicas do Congresso, como se deu em episódios como o do casamento homoafetivo, algo que submetido a um referendo dividiria o país, ou ainda com a decisão que legitimou a greve de funcionário público. O conflito atual, gerado pela expectativa da delação ciclópica da Odebrecht, que atingiria mais de duzentos políticos, é mais grave porque a classe suspeita e que detém ainda o poder de legislar, atuando em causa própria e coletiva, busca uma anistia prévia para livrar-se das consequências de atos delituosos, tipificados ao menos na legislação eleitoral como o uso do caixa dois que o lulopetismo via apenas, eufemisticamente, como "recursos não contabilizados" como argumentaram seus três tesoureiros presos.
Como se fosse uma espécie de desforço incontinenti diante de um juízo final, na retaliação os deputados e senadores pretendem ainda enquadrar tanto magistrados quanto procuradores em formas de abuso de autoridade que tratarão de configurar em lei e cujos parâmetros irão fixar para se livrarem dos efeitos dos raios de Zeus. Estamos assistindo uma forma de anomia antes inimaginável no ritual dos poderes por seu marcado traço de absurdo e também de entredevoramento como se guiado pelas artes de Kafka, de Camus e de Becket.
Do lado do Judiciário, sempre mais formalístico e cauteloso, há em sua pauta próxima aquele julgamento crônico do caso do presidente do Senado, Renan Calheiros, que tinha parceira, com a qual teve filho fora do casamento, paga por uma empreiteira, isso sem falar em mais dez procedimentos contra sua pessoa, nem todos da Lava Jato. No caso específico, o de Mônica Veloso, cuja abertura processual pode se dar no início de dezembro no STF, Renan não teve alternativa se não a de renunciar, à época, à presidência da Câmara Alta.
O tsunami da Odebrecht atinge aquilo que é tido como a elite da classe política, cujo paradigma é bem descrito na figura de Eduardo Cunha, artífice-chave do impeachment e pega de frente boa parte da equipe de Michel Temer. Pelo jeito, os efeitos dessa delação coletiva da empreiteira terão impacto bem maior do que o imaginado para uma eventual fala de Eduardo Cunha. A conferir e padecer.

Gasolina na fogueira
É visível que toda a articulação de ocupações, bloqueio de estradas (como se deu ainda ontem nas imediações do Centro Politécnico), é de traço político e de oposição porque voltados para a PEC do teto dos gastos e também a MP da reforma do ensino médio, uma espécie de revanche do pós-impeachment. Para hoje há várias manifestações, passeatas e greves tocadas pela Força Sindical, entre as quais a dos transportes urbanos que eclodirá por aqui apoiada na informação de que o cartel não tem como honrar o décimo terceiro salário, razão mais forte do que a da ideologia.
Para que se tenha noção da extensão e capilaridade dessas ações, basta lembrar que ontem, com apenas dois votos contrários, o Conselho Universitário da Federal aprovou moção de apoio às ocupações, mobilizações e greves e de total repúdio tanto à PEC dos gastos como à MP do ensino médio. É resistência civil aberta, só não enxerga quem não quer.
E há um detalhe: a fragilidade do governo, respingado pela Lava Jato e por atos de advocacia administrativa, como os do ministro Geddel Faria Lima, em que pese todo apoio que recebe das classes conservadoras, mais um sinal presumido de que o que vem por aí não será bom para a classe obreira em mexidas nos estatutos trabalhista e previdenciário, daí a rebelião.

Liminares
Quando o governo achava que a fatura estava consolidada no garrote vil orçamentário, eis que pinta mais uma liminar do constitucionalista e desembargador Jorge Vargas. Como estamos no vale tudo das ocupações, o Legislativo não deu bola para o bloqueio na certeza - e essa inabalável - de que a medida seria derrubada por ato do próprio Tribunal de Justiça. Só que isso vai aquecer o clima da Ação Direta de Inconstitucionalidade a ser proposta no STF, o que leva o governo estadual ao pânico. Restrições de espaços para as manifestações por parte da direção do Legislativo motivaram as massas que cercaram o Centro Cívico e lá permaneceram gritando palavras de ordem e prometendo greve, como querem os mais radicais, até para fustigar a PEC e a MP.

Reação
A Fecomércio, em pesquisa, apurou pequena melhora na economia em novembro da ordem de 1,8%, no entanto, bem inferior aos 2,8% do mesmo período do ano passado,

Folclore
No ano passado o Black-Friday, em certos aspectos, foi uma Black Fraude que obrigou agora o Procon, através da diligente Claudia Silvano, fazer esclarecimentos preventivos, botando o consumidor em atalaia. Se todo agente público tivesse a presteza dessa servidora, estaríamos numa boa, mas não é a nossa realidade. Outro setor de atendimento eficaz é o da ParanaPrevidência, que não enrola o beneficiário que busca os seus serviços.

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