Moratória inesperada
Quando tudo estava armado para a aprovação do orçamento, e com ela o veto ao reajuste dos servidores estaduais, uma liminar do desembargador Jorge de Oliveira Vargas excluiu do debate o dispositivo que mais interessava ao governo e que contava com o apoio manifesto de todas as entidades conservadoras em nome da austeridade para evitar o caos. Com essa vitória provisória (a procuradoria do Legislativo entraria ontem mesmo com recurso junto ao Tribunal de Justiça e com chances de revogá-lo), deu para perceber que a mobilização atraiu caravanas do interior para encher as galerias e testar a resistência dos deputados submetidos também ao corpo a corpo de uma pressão em cada gabinete parlamentar. Uma das técnicas em prática é a de utilizar lideranças comunitárias das bases de cada deputado para tentar persuadi-los.
Está criado um problema sério para Beto Richa e seus aliados que esperavam um ritual menos complicado para impor sua vontade como sempre acontece. Reforços especiais de segurança foram adotados para que não se repita o inesquecível 29 de abril que superou, de longe, a saga das bombas de Alvaro Dias de 1988 e que o colocou de castigo por algum tempo.
A situação é grave porque ela se insere num complexo de resistência civil de âmbito nacional e com expressa presença regional, voltado para a pauta de Michel Temer com a PEC do teto dos gastos por vinte anos e a MP do ensino médio, que está sustentando ocupações e novas manifestações de rua como uma programada para São Paulo a ser ancorada pelo ex-presidente Lula e o ex-presidente do Uruguai, o guerrilheiro afável Mujica.
Tem-se como certo que o governo reverte a situação, todavia, qualquer demora afeta o cronograma e amplia o campo das conversações para membros do Judiciário, que também têm suas reivindicações corporativas e exigências muito claras quanto ao suprimento de dotações orçamentárias. Já em situação anterior em que o governo cortou o reajuste automático do pessoal do Executivo, teve a cautela de não fazê-lo com o Judiciário, Legislativo e Procuradoria da Justiça e também o Tribunal de Contas, mandando às favas a isonomia de tratamento intrapoderes. Percebe-se também a absoluta falta de liderança do governador para a hipótese de uma convocação geral do setor público voltada a um verdadeiro ajuste fiscal que a todos contemple e comprometa. Falta-lhe pegada, personalidade, carisma para esse campo missionário, entregue que está ao varejo das relações de cordialidade, tanto que padeceu muito quando o seu secretário da Fazenda, Mauro Ricardo Costa, cutucou o Judiciário na referência às "ilhas de tranquilidade" dos poderes .

Jurisprudência
Depois do impacto provocado pela liminar, o presidente Ademar Traiano suspendeu a sessão convocando outra para a noite e fez a análise com o quadro de procuradores legislativos dos fundamentos invocados pelo constitucionalista Vargas. Dentre eles, há um julgado do Ceará pelo STF em que a atual presidente, Carmen Lúcia, dá o voto decisivo pela irredutibilidade da remuneração funcional daquela pendência. Claro que cada caso tem a sua especificidade e nem sempre gera jurisprudência.
Havia, no entanto, a confiança do governo em rápida reversão do quadro e tanto que se esperava ainda para ontem a aprovação da matéria. Sindicalistas por precaução decidiram permanecer a postos.

Luz no túnel
No meio de tanta adversidade uma notícia importante do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada: a Região Metropolitana de Curitiba obteve entre os anos de 2011 a 2014 a primeira posição do país em termos de Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, feito rastreado por órgãos da ONU. E olha que temos alguns bolsões de miséria como o de cidades do vale da Ribeira.

PF sem quadros
A desocupação da Universidade Federal Tecnológica tinha um embaraço: a Polícia Federal não dispunha de quadros para proceder a desocupação determinada pela Justiça. Um problema puxa outro: o drama fiscal do Rio Grande do Sul aumenta a criminalidade, tanto que houve alta de 188% em roubos de automóveis e de 132% em arrombamentos. Aqui também nesse item os dados nada têm de satisfatórios.

Purgativo
Enxugamento no Banco do Brasil e na Caixa Econômica Federal criará desemprego, ainda que suavizado pelos programas voluntários. Tudo isso gera o clima adequado para os que veem no teto do gastos mais problema do que solução, o que adensa a resistência. E no governo federal falta peso moral (vide o episódio Geddel Vieira Lima metabolizado por Michel Temer) para expressar um momento de união nacional e superar a recessão.

Folclore
A ideia de Lula processar Sérgio Moro por abuso de autoridade, segundo Boechat, âncora da Band, é como o poste mijar no cachorro.

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