A vez de Lula
Apesar dos estrilos do ex-presidente Lula, inclusive com seu pedido de prisão do juiz Sérgio Moro por abuso de autoridade, parte e estratégia advocatícia para caracterizar suspeição do magistrado, foram ouvidas ontem quatro testemunhas de acusação dentre elas a mais importante o ex-senador Delcídio do Amaral, ex-líder do governo no Senado. Tudo que se fizer nessa direção deve ser solidamente respaldado em provas documentais ratificando aquilo que desponta nas delações premiadas ou em depoimentos como os havidos em Curitiba.
Até agora o material colhido, exacerbado no show televisivo do procurador Dallagnol, que mereceu puxão de orelhas do ministro Teori Zavascki com sobras de razão, não aparenta a consistência alardeada, ainda que ressalte o convívio espúrio público-privado (governo e empresas de porte que nele gravitam), um verdadeiro contubérnio na troca de interesses nem sempre respeitáveis. Se as provas não forem claras, presumir-se-á suspeita de que há uma espécie de trama persecutória que só tenderá a favorecer o acusado em função de suas reações aqui e no exterior com a representação já acolhida na ONU, o que não pode e nem deve ser desprezado, ainda que isso não implique em antecipação de juízo de valor.
Lula não é Sérgio Cabral, Garotinho e muito menos Eduardo Cunha. Não é um ser especial de corpo fechado às ações judiciais, porém é uma expressão nacional e internacional. Contra Sérgio Cabral, Garotinho e Eduardo Cunha o rol de provas é significativo. Indispensável que se monte algo, em termos periciais, equivalente para denunciar o ex-presidente. A história do sítio de Atibaia e do tríplex de Guarujá, tanto quanto à da piscina do Alvorada, não estabelecem o nexo causal físico-subjetivo do delito, a intenção somada ao resultado, ainda que destaquem o convívio de praxes reprováveis.

Desmanche do BB
A reengenharia a ser aplicada no Banco do Brasil com fechamento de agências (26 no Paraná e 6 na capital) e nada menos de 402 no país, acompanhada de supressão de cargos e demissão em massa, em maioria por via voluntária, é algo que caracteriza uma nova filosofia, o que não significa o fim das práticas patrimonialistas visível na intervenção do ministro Geddel para afrouxar regras de proteção do patrimônio artístico e histórico em prédio de seu interesse na Bahia que redundou na demissão do ministro da Cultura, denunciador da pressão. Assim é o governo Temer, ao lado de uma medida que indica a busca de racionalidade (como já se faz na Petrobras também apertando parafusos, venda de ativos e baixa de custos) e no empenho do teto dos gastos em vinte anos, sempre há uma brecha para escândalos e situações anômalas às que já derrubaram ao menos cinco ministros em tão curto espaço de tempo.
Por sinal que designando o senador Romero Jucá como seu líder, aquele que pretendia deter a sangria da Lava Jato, deixa clara a intenção de enfrentamento do cerco judicial, claro que em nome da restauração nacional e recuperação de sua economia, mas tudo num clima de veludo para sugerir legalidade e diplomacia em defesa da classe ameaçada pelo meirinho.
Só falta agora a paranoia de que vão "privatizar" o banco estatal para que tenhamos o exercício de ocupação de agências por parte de exaltados sindicalistas como se dá em todo o Brasil com unidades universitárias e de escolas do ensino médio.

Confronto quente
Delegações do interior, mormente das universidades estaduais, são esperadas hoje para ocupar as galerias da Assembleia Legislativa na tramitação do orçamento e em especial do dispositivo que suprime o reajuste do servidor público. Como a determinação do governo é tida como vital para a sobrevivência estadual sem lesões à Lei de Responsabilidade Fiscal (LFR), teremos um clima de confronto com o exercício de pressão do Fórum sindical. O cenário é previsível em choques e possível mobilização militar, a despeito de não se desejar, pelo menos na perspectiva oficial, reprise do 29 de abril, que afundaria a postulação senatorial de Beto Richa.
Obviamente, o governo tem argumentos de que mais de 20 unidades federativas estão em situação pior do que a nossa, casos especialmente do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul que decidiu nos últimos dias que só pagará a folha dos barnabés no dia 15 do mês seguinte, segura o décimo terceiro para quando houver condições financeiras e aumenta de 13,25% para 14% o desconto previdenciário obrigatório.

Sem governo
Três homens armados invadiram o Shopping Curitiba, ontem pela manhã, fazendo uma limpa nas Lojas Americanas. Que o governo tenha cautela em não despejar ocupações estudantis, já autorizadas pela Justiça, até se compreende, mas deixar o Paraná aberto ao festival do crime já é demais. E assim, como se fosse uma cena de sonambulismo, tudo está a se repetir não apenas nas explosões de caixas eletrônicos e também nos assaltos à mão armada à luz do dia.

Folclore
De junho a setembro o Paraná ganhou o código C= (fraca) para B (forte) no Tesouro Nacional, mas uma consolidação de números indicou que despendemos 61,83% com pessoal. Daí a razão para não ter reajuste automático. Jurisprudência do Ceará em que o STF fulminou a redução de salários vai ser invocada pelos servidores junto ao TJ.

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