LUIZ GERALDO MAZZA
Memórias de um foca engravatado
Em 1953, já com três anos de jornalismo, a maior parte dele na produção de crônicas, estava como redator do serviço público, integrante da Câmara de Expansão Econômica, onde tive a glória de ver de perto o padre Lebret, cuja contribuição à filosofia de planejamento no Paraná e em São Paulo é muito forte, a postos no Palácio São Francisco quando o Chefe da Casa Civil do governo Munhoz da Rocha, o professor Milton Carneiro, me chamou à parte superior do prédio justamente na área em que Getúlio Vargas passara a noite. Subi, no verdor dos 22 anos, a escadaria e, lá em cima, como um protetor chave do espaço, estava o chefe da Guarda Pessoal do presidente, Gregório Fortunato, o celebrado Anjo Negro que se tornaria meses depois no elemento-chave da trama que desencadearia o ataque a Carlos Lacerda e que mataria o major Rubens Vaz que protegia o jornalista e criaria a República do Galeão no IPM disposto a atingir Vargas e que o levaria ao suicídio. Mal me perguntou o que pretendia e me deu um vigoroso empurrão, que me lançou escada abaixo com a mesma destreza de Renata Sorrah, a vilã de ´´Senhora do Destino´´ que se especializara neste recurso para eliminar adversários supostos ou reais naquele folhetim global.
O anjo de novo
Era a segunda vez que via de perto o celebrado protetor de Getúlio: a outra tinha sido no maior comício já havido na Boca Maldita (três vezes superior ao das ´´Diretas Já´´), em 1950, da sacada do Braz Hotel. Havia dois candidatos no Paraná, excelentes, os engenheiros Bento Munhoz da Rocha Neto e Ângelo Ferrário Lopes e o candidato não quis tomar posição em relação à disputa provincial, limitando-se ao elogio aos digladiantes. Uma ala do PTB, regida pelo deputado federal Paraílio Borba, pendia para Bento e fazia proselitismo nessa direção e havia muitas faixas com esse posicionamento. Foi, então, que o Carlinhos Pereira, famoso brigador de rua, arrancou uma dessas faixas em meio à densa multidão. Foi o suficiente para o estouro da boiada de 50 mil pessoas que se estendia da Praça Osório até a Dr Murici. Acompanhava Carlinhos, que era lutador de catch, outro temerário, Murilo Beltrão que acabou atingido por arma branca. Lá do alto, o Anjo Negro não titubeou e desceu a escadaria e começou a dissuadir os que brigavam, dando pancadas a três por dois. Na escada, Gregório era bem melhor que Renata pelo menos no meu insuspeito ponto de vista.
O parto da Eletrobras
Na sequência, isso em 1953, celebração do Centenário do Paraná, agora como repórter, vi no salão nobre do Novo Ateneu, que abrigaria a Faculdade de Direito de Curitiba, numa reunião da Comissão Interestadual da Bacia do Paraná-Uruguai, integrada por todos governos por ela banhados (dentre os governadores Juscelino Kubitschek, de Minas, e Lucas Nogueira Garcez, de São Paulo), o presidente Vargas, para espanto de alguns e alegria de outros, anunciar a criação da Eletrobras, mais um elo estatal do seu projeto nacional-desenvolvimentista. Meses depois, Vargas derrotaria seus inimigos com o próprio sangue o que permitiria a vitória de Juscelino Kubitschek e o advento do sonho de cinquenta anos em cinco e a manutenção da frente popular possível em termos brasileiros. Nela subiriam a escada primeiro Juscelino e depois Jango Goulart com a renúncia de Jânio e eu rolei nos degraus de uma experiência malfadada em jornalismo burocrático, palaciano, chapa branca, o que não implica, tal qual se vê, em acomodação, inércia e muito menos tédio.





