LUIZ GERALDO MAZZA
Batalha sem fim
O aparato montado à frente do Núcleo Regional da Educação desde anteontem ocupado, já com o corte de luz e água feito pelo governo, mais os dois cordões, um da PM, outro de estudantes solidários , são indicações claras de que o confronto é visto como uma espécie de batalha final, o que está longe de acontecer até porque os colégios continuam ocupados em todo o Paraná e tudo permanece, em que pese a movimentação, em ponto inercial. Assim, aquilo que aureolava o Colégio Estadual do Paraná como bunker privilegiado no momento também funciona na antiga sede do IPE, hoje ParanaPrevidência, como bastião de resistência,
O imobilismo gerado pela tolerância extrema com manifestações, como se elas traduzissem uma visão avançada de democracia e não uma complacência exagerada com a baderna, uma aceitação de que o democratismo e o assembleísmo se apresentam virtuosos e não deformações apropriadas às práticas do populismo que nos degrada. Num momento em que se esgotam as perspectivas de superação do impasse, o governador afirma que a polícia vai agir porque a brincadeira foi longe demais. Como tudo não passa de uma frase com a boa intenção de persuadir os estudantes, cada vez mais excitados com a situação que no plano imaginário, infantojuvenil, remete a uma espécie de guerrilha, a energia acumulada tende a levar o impasse a um configuração bélica.
Fica claro que qualquer imprudência da parte oficial, como se deu no Norte do país com o Ministério Público autorizando algemar jovens rebelados, tende a fortalecer o ânimo dos invasores na disposição de resistir, razão pela qual a paciência é levada ao extremo como se viu na negociação em que a luz e a água serão devolvidas ao prédio, a ocupação mantida, com os estudantes abrindo mão do uso de máscaras e capuzes. Como as invasões já levaram aos gastos extremos cerca de R$ 3,5 milhões - para a Justiça Eleitoral com a mudança de postos eleitorais, estamos agora sob a ameaça concreta de a rebelião conseguir dificultar o acesso ao Cemitério Municipal na romaria hoje de Finados.
É paciência para ninguém botar defeito, com as famílias não exercendo seu poder mediador e condenadas à mais absoluta impotência, a Justiça com suas decisões inúteis e sem efeito e uma polícia judiciária submetida à contemplação, como se a insurgência da resistência civil fosse algo tão sagrado que não pudesse ser enfrentado. Só falta nesse quadro a Secretaria de Educação afirmar que o ano letivo está perdido e nada mais há a fazer.
É a anomia levada à sua mais forte expressão com o princípio da autoridade subjugado inteiramente pelo da liberdade numa ´´revolução´´ operada sem resistência com todo o jeito de uma gincana em metamorfose para um ato de aberta conspiração. Completa o cenário, a decisão do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, Inep, transferindo o Enen nas áreas conflagradas, o que certamente não é, valha o trocadilho, um caso de inépcia.
Assembleísmo
Agora é a senadora Gleisi Hoffmann, que parece apostar todas as fichas nas ocupações das escolas e outros atos hostis ao governo, quando propõe um recurso da democracia direta, o do referendo, para que a população opine se concorda ou não com o teto dos gastos, batalha politicamente já perdida nas duas casas do Congresso. É o assembleísmo institucional que pega mal depois da resposta das urnas municipais com o massacre do absenteísmo e da massa de votos nulos e brancos, um público altamente condicionado contra os políticos e descrente no ordenamento legal, um niilismo exposto. Seria um segundo turno, depois de tantos e prolongados ritos, para o impeachment porque é visível que só beneficiaria os derrotados do mais recente processo eleitoral e que ratificou, de forma clara, o afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff, aí sim com a força de um referendo e que abarca, além dela, a figura mítica de Lula e de toda a companhia.
Greve da polícia
De todos os grupos em greve, o que mais apostou em itens institucionais (ausência de condições operacionais) do que em demandas econômicas (reajuste na data-base e cobrança de atrasados em promoções e progressões) foi o da Polícia Civil que não acatou a decisão judicial e persiste no movimento. Greves da polícia - tanto civil quanto militar - têm sido comuns no país a despeito daquela jurisprudência que impede, no STF, a quem tem as armas do poder o faça. Mais um sinal de anomia, ausência de referenciais institucionais.
Inflação
Ontem dois aumentos: o do gás de cozinha e o das multas de trânsito. E virão mais, pois a parte mais amarga do pacote nem é referida.
Folclore
Nos anos 50, a elevação do custo de vida ocupava a atenção dos vereadores de Curitiba e quando o debate era mais intenso um mais ajuizado explicava que era inútil a terapia dos tabelamentos pela Comissão Federal de Abastecimento e Preços, a Cofap, acoplada às Coaps regionais, já que tudo redundava das oscilações do mercado na Lei da Oferta e da Procura. Aí, um exaltado defensor do povo argumentou: por que não revogamos essa lei? Criações, enfim, da democracia que poderia gerar a derrogação também da lei da gravitação dos corpos.





