LUIZ GERALDO MAZZA
Recuo da sensibilidade
Nem toda aritmética de assembleia constrói consenso, como se viu naquela da semana passada da APP Sindicato em que, por cinco votos numa plenária de 1.500, optou-se pela continuação. Ora, é visível que um dissenso desse porte, por uma questão de sensibilidade, deveria levar a liderança a entendê-lo como estrito demais para uma decisão de tanto risco e tamanha envergadura. Houve o erro e tivemos a penitência com o passar das horas: mesmo depois do clima tenso com as ocupações dos colégios e das universidades estaduais, misturando como fundamento político questões desiguais como a da reforma do ensino médio e a PEC do Teto dos Gastos, ornada ainda com a invasão do Núcleo Regional da Educação, tivemos aguda lucidez da APP em encontro de ontem, com mais de 3 mil sindicalistas, decidindo pelo retorno ao trabalho.
Isso se dá num momento importante em que as próprias categorias captam o estresse, a fadiga do material do assembleísmo de muita emoção e baixa racionalidade, ainda mais após a decisão do STF que consagra o desconto dos dias parados e o projeto de lei do senador, ex-guerrilheiro, Aloysio Nunes, no sentido de regulamentar o exercício das paredes no setor público e muitos lembram, inclusive, que em 2007 Lula se viu obrigado a descontar os dias parados de barnabés federais.
A vulgarização da medida extrema, a "ultima ratio", empregada a três por dois, não pode e nem deve ser suportada pela maioria da população, daí, o enfado com o tema e a valorização do diálogo com a autoridade sob pressão. O governo paga por sua baixa credibilidade, tantas as empulhações que alardeou sobre a situação fiscal e os tombos que aplicou em parte da massa funcional. Sindicalistas devem ir a esse encontro com respaldo técnico oferecido pelo Dieese para contrapor-se à massa de argumentos do Mauro Ricardo Costa, que assumiu pesada herança ao aceitar a pasta fazendária num barco que há muito fazia água.
A decisão dos professores obriga o governo a uma atitude mais madura nos entendimentos, abstendo-se de valer-se de manobras que nada têm de sutis para justificar o desastre fiscal que ele próprio gerou. E isso fica nítido no fato de que, segundo seu levantamento, despesas cresceram mais de 10% e as receitas menos de 2%, o que não é boa gestão fazendária.
Mais invasão
Enquanto o governo afirmava que havia 315 escolas ocupadas, o movimento respondia com outro número: 450. O fato é que ontem decidiram ocupar o Núcleo Regional de Educação situado no antigo prédio do IPE (Instituto de Previdência do Estado), hoje ParanaPrevidência. Como os fundamentos da invasão são os mesmos contra a MP da Reforma do Ensino Médio e a PEC do Teto dos Gastos, sua definição política é visivelmente um ato de oposição e que mexe com a euforia da maioria parlamentar que os aprova e cuja aliança partidária foi a vencedora inegável do pleito municipal. Até por falta de espaços para a esquerda (e isso ficou nítido nas mensagens à adolescente Ana Júlia por parte de Lula e de Dilma Rousseff), essas manifestações favorecem a oposição. E isso é tão claro que ontem a nossa Dolores Ibarruri, que ainda não debutou no baile apropriado, quem sabe até por isso não fazer parte dos seus hábitos, vivia mais horas de mito moderno na capital federal com seu discurso cheio de fé e competência como a mostrar que os ocupantes sabem o que estão fazendo e que a causa vale a pena.
Ressaca
Também em nosso litoral a ressaca fez estragos notadamente nas praias de mar aberto, mas também na Ilha do Mel, onde o impacto foi grande,
Cida prejudicada?
Todos se dizem vencedores na base aliada de Beto Richa e o PSD reafirmou a postulação de Ratinho Júnior, favorecido pelo desempenho da sigla no pleito municipal, mas a posição de Cida Borghetti sai prejudicada com a derrota do marido e do cunhado em Maringá, ainda que possa fazer algo nos nove meses de gestão no Palácio Iguaçu por sua reeleição. Quem sai fortalecido, apesar do mau momento do seu governo, é Beto Richa com as vitórias da capital e de Londrina e Ponta Grossa. Pode comandar a sucessão e fazer acordos. Há algumas hipóteses estranhas como a de apoiar Osmar Dias ao governo com ele brigando pelo Senado. Raciocínio é meio pragmático se a candidatura presidencial de Alvaro Dias pelo Partido Verde vier a confirmar-se. Dobradinha de irmãos funcionaria bem ainda que haja uma questão: se Ciro Gomes for o candidato a presidente pelo PDT haverá, por certo, conflito e uma possível intervenção no diretório regional para conter a irmandade Dias.
Folclore
Em 1953, no verdor dos meus 22 anos, penúltimo ano de Direito, estou no Palácio São Francisco , sede então do governo paranaense, como redator do serviço público e o chefe da Casa Civil, o genial Milton Carneiro, autor do célebre exercício existencial ´´Procissão de Eus´´, me convida para subir ao andar superior onde Getúlio Vargas passara a noite. Ao subir a escadaria, encontro lá em cima o ´´Anjo Negro´´, chefe da Guarda Pessoal do presidente, Gregório Fortunato, que nem tergiversou e até me empurrou degraus abaixo. Quando lembro da cena, não esqueço da Renata Sorrah, vilã da novela ´´Senhora do Destino´´, derrubando gente escada abaixo. Apesar da juventude, eu não levava o menor jeito para ocupações.





