Cautela mínima com Lula
Até agora, em que pese a força de indícios de comprometimento, não há prova segura, consistente, de envolvimento do ex-presidente Lula. É verdade que a longa exposição dos que fazem a delação premiada, como essa de Alexandrino Alencar, amicíssimo de Lula, trazem fatos novos relativamente às reformas do sítio de Atibaia, mas decorrem de revisão em depoimento anterior, o que a torna vulnerável e projeta a noção de que a prensa no tempo força o sentido da colaboração. Se as provas vierem com esse defeito de origem – e é claro que ainda dependem de respaldo documental para serem tidas como fiéis - corre-se sério risco de comprometer a Lava Jato e abrir caminho para inocentar aquele que parece o mais visado do processo. Se um José Dirceu já se sentiu em condições de pedir para ser liberado e responder em liberdade às ações a que responde, notadamente depois de livrar-se das penas do mensalão pelo ministro Barroso, do STF, logo ele que era a figura de proa do governo e principal operador, é de concluir-se que aquele que ´´de nada sabia´´ de todo o lamaçal de corrupção carece de força probatória para figurar, conforme o relato do procurador DalLagnol, como ´´chefe de quadrilha´´, encenação espetacularizada que mereceu reprovação veemente do relator Teori Zavascki.
Durante o mensalão, graças à pusilanimidade da oposição, não se arriscou algo mais que fosse além da CPI dos Correios e chegasse na figura do presidente. E não se fez isso pelo temor da taxa de credibilidade ainda mantida por Lula na opinião pública. Hoje ele está em queda em função da esmagadora derrota do seu projeto e das suas sequelas econômicas e sociais que jogaram o país numa fossa, mas por isso mesmo indispensável se torna que se vá bem além de presunções e especulações quanto ao nível de denúncias e acusações que até aqui só adensaram o martírio e o vitimalismo que tanto favorecem, por tradição, nossos políticos. Getúlio Vargas derrotou seus acusadores imolando-se, Lula tem tudo para voltar com força redobrada se as acusações contra ele, embora seu volume, soarem inúteis. O suicídio teria sido dos acusadores se não apresentarem mais provas do que suposições, o que seria trágico num momento de vazio de lideranças e capaz de transformá-lo, de novo, no homem providencial, já que os que se apresentam para essa função messiânica são irritantemente conhecidos.

Lucidez
Elogiável a atitude do Conselho Estadual de Educação ao manifestar-se claramente contra a MP da reforma do ensino médio. Isso, institucionalmente, vale mais do que mil ocupações da rede escolar por que emerge de um contexto mais técnico-pedagógico do que político e decorre de visão pluralizada de um órgão fundamental na doutrina do setor. Resta que o governo saiba valer-se dessa intervenção de um organismo de supervisão e dela se valha para tentar, ao lado de outras medidas judiciais, para por fim à trama que ameaça, uma vez mais, como se já não bastasse a greve dos professores, o precário calendário escolar.

7 vezes 77
Como no brocardo bíblico sobre a absolvição do pecador, que deve se dar setenta vezes sete, o diálogo entre funcionários estaduais (representado pelo ´´Fórum´´) deve ter continuidade, ser levado, enfim, à exaustão. Ontem novo contato entre a Casa Civil e os servidores mostrou que é possível retomar a negociação por mais dura que seja. O relato fazendário não convence, razão pela qual o assessoramento dos sindicalistas por econometristas do Dieese é fundamental para equilibrar as posições colocadas.

Capilarizou
O movimento das ocupações escolares, hoje atingindo perto de 20 unidades federativas, contra a MP da reforma do ensino médio, ainda tem no Paraná o seu parque mais forte e aqui sua expressão dependeu da arregimentação dos professores em greve, vista como subproduto político e tida abertamente como uma ação disposta a contestar o governo federal e sua composição, ora vitoriosa na PEC do limite de gastos, alvo também da mobilização sindical e estudantil. Numa das escolas estava a palavra de ordem: "Estudante incomoda muita gente e derruba presidente". Embora nem sempre uma rima seja a solução, como ensina Drummond, está criado um clima de Woodstock ou até das barricadas de 1968 na França, confirmado no discurso da adolescente que falou ontem pela turma das ocupações na Assembleia e chocou os parlamentares quando disse que tinha ido ao enterro do Lucas (o jovem assassinado em Santa Felicidade) e não havia visto nenhum deles lá e avançou o sinal dizendo que estavam com as mãos sujas de sangue. Seguiram-se o discurso de Ademar Traiano, o presidente, o pedido de desculpas da adolescente, mas ficou claro que Woodstock apenas começou. Falta a música, Joan Baez, quem sabe o Nobel de Literatura, o enredo é bom. A chatice e o tédio são dos destituídos de imaginação.

Folclore
Anteontem, o governador Beto Richa descobriu que Ratinho Júnior e o Sciarra do PSD integram ou integraram sua equipe e chamou-os às falas por estarem com Ney Leprevost daquele partido. A lentidão suposta de Ademir da Guia era elegância, essa é inclassificável.

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