LUIZ GERALDO MAZZA
Tucanos diferenciados
Nas manchetes ontem desta FOLHA e da "Folha de S.Paulo" a diferença de estilos de socialdemocracia: o prefeito eleito em São Paulo, João Dória, promete congelar tarifa de ônibus e não aumentar taxas ou impostos municipais e o nosso governador Beto Richa anuncia que não permitirá reajustes salariais. Como se vê, há divergência profunda na forma de enxergar a política que penetra fundo numa questão de axiologia (valores) e até no sentido de concepção de vida.
Quem sabe o nosso governador seja mais fiel à realidade e às suas responsabilidades como gestor público ao enunciar algo que o presidente da República, Michel Temer, não ousa fazê-lo na suposta intenção de controlar gastos. Beto, há bastante tempo, havia alegado ser inviável pagar promoções e progressões acumuladas, a maioria em favor de professores e policiais civis ou militares, e cumulativamente os reajustes automáticos, já burlados ano passado, impostos por uma lei decorrente do acordo depois das tropelias fascistas no Centro Cívico.
São Paulo, como unidade federativa, é a que tem o maior rombo fiscal do País, do qual também não escapa a maior prefeitura do Brasil, e o aceno feito pelo prefeito eleito está bem na contramão de qualquer noção de austeridade e tendo todo o jeito, apesar de fora do tempo, de promessa eleitoral. No caso paranaense, se percebe que o ajuste à dureza da conjuntura não absolve o governo estadual das suas mentiras, como a assoalhada de que o nirvana fiscal já estava nos iluminando quando o que se constata é que a quebra estatal se deu sob sua condução sustentada em manipulações e muitas delas como as cometidas por Dilma Rousseff, que lhe renderam o impeachment e agora a possível condenação pelo Tribunal de Contas da União, coisa que o assemelhado estadual jamais faria por suas vinculações políticas como a história nos ensina anualmente. Uma coincidência: ambos botaram a mão nos fundos de proteção da criança e do adolescente e ajudaram a detonar os fundos de pensão. O governo paranaense, ainda amortecendo a bronca junto aos professores com o parcelamento das promoções e progressões, vai enfrentar greves e mobilizações que podem levar o seu ocupante à desistência da trajetória política já comprometida com a tatuagem indelével do massacre de 29 de abril, a nossa Guernica à espera de um pintor porque fotos, vídeos e filmes há em quantidade. Que venha o Picasso do Bogotaço.
Ocupação
Cerca de um centena de alunos do Colégio Estadual Arnaldo Jansen ocupa desde ontem as suas instalações em São José dos Pinhais contra a reforma do ensino, o que levou a secretária de Educação a uma coletiva para explicitar que o Paraná não seguirá a linha adotada pela Medida Provisória, o que já havia afirmado anteriormente.
Duas entrevistas no mesmo dia, uma do chefe da Casa Civil, Valdir Rossoni, para explicar as razões que levaram ao corte do reajuste dos servidores, e a da professora Ana Seres no sentido de conter a rebelião juvenil, ainda mais depois da experiência dos protestos e ocupações por causa das merendas. As duas com o objetivo de conter na origem aquilo que será inevitável em desdobramentos de crise. Incêndio se combate com água e aceiro.
Mal de ranking
Pós-graduado em greves, mas péssimo de ranking de avaliação escolar, o Paraná emplacou sete unidades entre as duzentas melhor classificadas no Enem. A melhor posicionada foi o Colégio Positivo em vigésimo sexto lugar, onde não há espaço para as paralisações. Detalhe relevante: todas as sete são infensas ao agito inútil e demagógico.
Delações
A força-tarefa da Lava Jato estaria convencida de que há material demais para cruzamentos de provas de várias das etapas da investigação que dispensariam o recurso de novas delações premiadas capazes de saturar o meio de campo dos procedimentos e em nada favorecerem o andamento processual. No momento a expectativa é em torno do pedido de mais prazo para Lula e sua esposa Marisa Letícia apresentarem a respectiva defesa numa das denúncias ao juiz Sérgio Moro.
Ruim de Ibope
Num momento em que mais precisa reforçar seu protagonismo na economia e na política, o presidente Michel Temer leva nota baixa por um Ibope/Confederação Nacional da Indústria/ Estadão com 39% de ruim e péssimo, 34% de regular e 14% de ótimo/bom. Melhor do que Dilma e Beto Richa na queda.
Novidades e absenteísmo
Houve novidades nessas eleições além do chocante absenteísmo presente nos votos nulos e brancos e nas ausências. Tonalidades novas de hábitos se projetaram na Câmara Municipal de Curitiba: duas vereadoras que defendem animais de rua se elegeram e também um dos mais articulados intelectuais do cicloativismo, a pedalada virtuosa, não a outra.
Folclore
Carlos Lacerda, a fúria verbal, nossa versão de Marco Túlio Cicero, faz um discurso arrasador na tribuna da Câmara Federal e um adversário pede-lhe um aparte para dizer: " Vossa Excelência é um purgante!". E ouve a resposta de bate pronto: "Vossa Excelência é o efeito". Outro dia o genial Solda fez uma caricatura dos nossos dias políticos e morais: "merdamorfose".





