LUIZ GERALDO MAZZA
Gracejos com patriotismo
Já tivemos no Brasil uma lei de fidelidade à pátria, um desses tons fascistoides - de repente, o culto ao país se deforma - surgia de todo o emaranhado de imposições ideológicas de um tempo que precedeu o "Ame-o ou deixe-o", celebrado já no furor do regime militar, tudo muito apropriado ao clima da Guerra Fria. Esse tipo de culto veio do "Estado Novo" e do qual muitos ainda têm saudades como o Bolsonaro. Lembro que já sob o regime democrático, advindo com a Constituição de 1946, ainda havia na Semana da Pátria duas comemorações: no dia 4, o dia da Raça, exaltação à nossa diversidade já aberta aquele tempo a todo o tipo de etnias e no dia 7, o da Independência, comemoração mor.
Lá pelos anos quarenta não sei por que cargas d'água o pessoal da bateria do Ginásio Paranaense, comandada pelo "Cebola", Elias Zanluti, resolveu à frente do palanque oficial na Avenida Luiz Xavier, em frente ao Cine Ópera, tocar a "conga", estilo musical de sucesso do momento, o que levou todo o estudantado a reprisar os movimentos do ritmo de forma bem compassada, algo absolutamente insólito para os hábitos da época.
Obviamente jamais fariam isso os alunos dos colégios Marista que faziam desfiles sem esse toque de classe média massificada do nosso principal ginásio e que funcionava, cabendo todas as séries do médio e mais do científico e clássico no prédio em que opera hoje a secretaria de Cultura, ali na Ébano Pereira, à frente da pracinha Santos Dumont.
Tidos como "anjos da cara suja", na verdade uma certa inclinação à cafajestice, éramos no antecessor do Colégio Estadual olhados como bárbaros. Lembro de uma manhã em que um oficial de cavalaria passou montado a cavalo pela rua Saldanha Marinho à frente do pátio da escola e levou uma vaia. Consta- e isso leva um tom de lenda urbana- que teria invadido as instalações da escola e ido até o ponto das concentrações matinais com o ritual do hasteamento e, mais tarde, o do arriamento da bandeira e teria sido enfrentado pelo temível professor Francisco Ribeiro, cujo nome já impunha severo respeito por parte dos alunos que tinham horror das suas aulas de moral recheadas de latim clássico.
E por causa desses tipos de ocorrência não era incomum haver editoriais da imprensa dando merecido pau nos transbordamentos dos jovens e por causa de um deles a turba, tal qual essa que é hoje infiltrada pelos "black blocs" nas broncas contra o impeachment, se dirigiu ao jornal crítico para empastelá-lo. Consta que o professor Ribeiro seguiu a multidão fazendo discursos com saques da oratória de Marco Túlio Cícero em seu pega com Lucius Catilina.
A irreverência era uma constante como a de produzir uma caricatura do Hino da Independência e ao invés do "Já podeis a Pátria livre// ver contente a mãe gentil" com o "Japonês tem quatro filhos". Lembro de uma das sátiras que fechava um trecho assim "porém se a pátria amada// precisar da macacada// puta merda que cagada".
Haja pobreza
Maioria esmagadora dos alunos do Ginásio era de gente muito pobre que à custa de bolsa não pagava, por não ter recursos, as taxas comuns da época, também aplicáveis ao primário. Como nem se imaginava esses tênis de grife de hoje usávamos uns paupérrimos que ficavam com aparência de limpos à custa de alvaiade e que volta e meia saíam dos pés pela movimentação do companheiro de passeata que vinha atrás. Como em setembro havia dois desfiles havia cuidado especial por parte da família de deixar o tênis em condições: dia 4, o dia da Raça, e dia 7, a festa da Independência, a passeata mais marcante.
Uma olhada nos nossos uniformes e no dos colégios particulares seria uma aula didática de ausência notória de igualdade, tão decantada em nossos hinos e na nossa dedicação à Pátria. De uma coisa podíamos nos orgulhar: o quadro de mestres que viviam da profissão e davam aulas o dia inteiro, muitos inclusive na Universidade Federal, a única existente. Raros deles, em que pese tanta aplicação, tinha automóvel, num deles afinal, metido a duro, volta e meia tinha seus pneus furados.
Bullying de lado a lado
Professor tirava sarro de aluno e esse de professor. Guilherme Butler, de inglês, explicava o que era uma aula de versão diferente da de tradução: dizia sobre a vaca e suas utilidades, mas observava que o animal tinha uma voz pouco agradável. Aí, lá atrás, alguém mugiu e o mestre perguntou: "Quem fez esse barulho com a boca?". E vinha a resposta oculta: "Foi a mãe da vaca".
Já o professor de Desenho, Pedro Macedo, entra na sala e a vê tomada por uma fumaceira vinda de uma fogueira de quintal vizinho agravada pela inversão térmica. Aconselha severamente aos "colegas" a encherem o peito e assoprarem contra a parede para expulsar o fumacê. Mandou, um dia, desenharem um cone e um deles tascou na página em branco um gigantesco "pênis". O professor vai lá e reclama: "O modelo é um cone e você, muito burro, me desenha um zepelin". Quem afinal fazia mais bullying?





