Guerra servil
Pomposo, mas se acreditando um porta-voz de mensagem salvadora, o senador Roberto Requião anunciou, como inevitável, a guerra civil que adviria após o impeachment. E o que tivemos, como o placar anunciou nos sessenta e um votos , foi na verdade uma guerra servil, a acomodação a um novo ordenamento político, mais uma vez orquestrado pelo PMDB que não chega ao poder pelos votos (vide Sarney substituindo o eleito Tancredo, vide Itamar Franco em lugar de Collor e agora Michel Temer em metamorfose para Joaquim Nabuco ou Rui Barbosa), todavia, sabe como usufruí-lo na picaretagem eufemística da governabilidade. Transformá-lo em homem providencial e salvador vai ser a tarefa básica dos marqueteiros.
Um dos insights do lulopetismo no país é o de seu suposto pendor revolucionário, atiçador da luta de classes, agora nas provocações de gênero e misoginia como tanto insistiram Dilma e Gleisi em seus arrebatados discursos. Isso não sai do campo da miragem porque se o apelo, que vem lá do Manifesto de Marx e Engels, fosse verdadeiro, certamente, esses 11 milhões e seiscentos mil desempregados do Brasil estariam nas ruas dispostos pelo menos a quebrar um orelhão ou chutar um cone de trânsito como quem bate um pênalti. Esse imaginário da política, que chamam de ideologia, não tem consistência para gerar algo no campo psicossocial como alertava a Lei de Segurança Nacional tão invocada em 1964, que punia o pensamento ou sua mera presunção com a tortura e a morte, embora a estatística brasileira seja pobre no confronto com a de uruguaios, argentinos e chilenos, o que também revela fragilidades do aparato repressivo e menor contundência revolucionária e de resistência.
Por sinal que os revolucionários se encontraram agora em campos diferentes: Aloysio Nunes Ferreira da Aliança Libertadora Nacional, de Marighela, e José Anibal da Polop estavam no pelotão de fuzilamento da ex-guerrilheira Dilma. Como de resto a imagem do martírio não se ajusta a Zé Dirceu e a tantos outros, ainda com dimensão de heróis, acusados pelos milicos de terem aberto o bico em seus depoimentos contra companheiros de aventura. Como Marx, pretensamente corrigindo Hegel, sobre o fim da história lembrou que ela se dá como tragédia e se reproduz como farsa. Nada mais farsesco do que guerrilheiros divididos em relação ao desfrute do poder real, mais sedutor que o imaginário de todos os sonhadores, gestado no calor da luta clandestina.

Um escracho
Os sessenta e um votos pelo impeachment revelam a precária cobertura política da presidente Dilma, é claro que fortemente prejudicada pela acomodação anestesiante em favor de Michel Temer e que assegurou a densidade do consenso e a precariedade do dissenso. A barragem numérica, os dois terços do Senado, é uma força que não pode ser desprezada, mas no curso das negociações quem tinha mais persuasão e poder de fogo era o interino. Acreditava-se que dentro das tradições brasileiras, nossa compulsão pelo melodramático e o vitimalismo, pudesse auxiliar a presidente afastada. Uma derrota acachapante.
Até a concessão de não retirar-lhe por oito anos, o que é pena acessória e indesligável à cassação como houve com Collor, os direitos políticos soou como gesto de comiseração e de punição no plano moral.

Um repeteco
A bancada paranaense em maioria votou contra o impeachment como se viu nos discursos e votos de Roberto Requião e Gleisi Hoffmann. Alvaro Dias votou com os vencedores. Uma reprise do havido sob Lerner quando da discussão no Senado sobre protocolos de intenção das montadoras quando só José Eduardo Andrade Vieira votou pelo Paraná, já que Requião e Osmar Dias fizeram no plenário o que haviam aprontado na Comissão de Assuntos Econômicos, opondo resistência à vinda das montadoras sob o ponto de vista de que eram misteriosos os tais protocolos de intenções, um segredo de polichinelo segundo deputados da própria oposição como Luiz Claudio Romanelli.

Um marco
Faleceu ontem em Curitiba o ex-governador e empresário paranaense Jaime Canet Júnior. Dentre os governos indiretos, o dele foi um dos que mais mudanças produziu na economia regional e isso se deu em todas as áreas de administração das estradas, usinas hidrelétricas, educação, saúde, segurança, telecomunicação. Um dos seus feitos foi a pavimentação de baixo custo que atendeu 4 mil kms e se transformou em modelo do Banco Mundial.

Folclore
Há quem veja dignidade na forma como agia o Exército Brancaleone na comédia de Vitório Gasman e há quem descubra extrema semelhança entre os resistentes do lulopetismo nos episódios de ontem na caricata e diminuta resistência oposta à queda de Dilma Rousseff. Aliás, esperava-se mais da contundência de movimentos sociais que perderam motivação ante a constatação do fracasso governamental na economia e no seu desmantelo. O massacre numérico é de tal monta que desmoraliza a alegação de golpe. Como no futebol, a goleada é inquestionável, vale mais do que jurisprudência.

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