Populismo em alta

Pelas sondagens tanto do Ibope como do Datafolha, apesar do ceticismo generalizado do público, revelado nas espontâneas, o populismo, ainda que severamente criticado na Lava Jato, está à frente das eleições municipais. É o caso de Londrina, que costuma revezar gestões mais contidas e austeras (Milton Menezes, Wilson Rodrigues Moreira, José Richa, Hosken de Novaes e agora a de Alexandre Kireeff) com as populistas como as de Antonio Belinati, o que pelas sondagens deve ocorrer com a hegemonia do sobrinho Marcelo com 45,5% das preferências na pesquisa do Instituto Multicultural.
Também em Curitiba um populismo sofisticado, meio pop, um tanto quanto barrococó, na figura desenvolta e alegre de Rafael Greca, renovador do lernismo com as ruas da cidadania, a ampliação do transporte e as bibliotecas do Farol do Saber, bem à frente do mais austero e discreto Gustavo Fruet. Em Minas Gerais dois mitos do Galo, o Atlético Mineiro, o goleiro João Leite, PSDB, com 26% sai à frente na prefeitura de Belô tendo como seguidor Alexandre Kalil (PHS) com 14%, ex-presidente do mesmo time de futebol. Imaginem o peso dessa correlação. Na capital paranaense os líderes da pesquisa são coxas-brancas.
Também em São Paulo novamente um viés fortemente populista predomina com Celso Russomano, que não é um Ralf Nader, mas explora o mesmo filão do consumerismo, à frente com 31% seguido de Marta Suplicy com 16% e no Rio com o senador Marcelo Crivella com 28% e em segundo lugar em empate técnico Marcelo Freixo (PSOL) com 11%, o direitista radical Flávio Bolsonaro (PSC) com 9% e Jandira Feghali (PCdoB) com 7%. O candidato do prefeito Eduardo Paes (PMDB) aparece com apenas 5%, não beneficiado pelo sucesso dos Jogos Olímpicos, mas tisnado pelos informes de ter agredido a mulher, o deputado federal Pedro Paulo.
Esse quadro pode mudar, todavia os eventos nacionais, como os decorrentes da Lava Jato e do processo de impedimento de Dilma Rousseff, que dominam os acontecimentos, parecem ter pouca influência nos acontecimentos de cunho eleitoral, tanto que em Recife o ex-prefeito João Paulo (PT) com 32% e o prefeito atual Geraldo Júlio (PSB, originário também da aliança lulista) com 28% estão em empate técnico.
A não nacionalização do pleito empurra a temática local (transporte, segurança, lixo, saúde, educação) como foco essencial, a abrangência do campanário que nas megalópoles ganha dimensões dramáticas, posto que nas médias e pequenas cidades se limite ao essencial na prestação de serviços públicos.
Londrina, de porte médio, rediscutirá como sempre a vocação da cidade, sua inserção em ordem mais industrial e aposta na inteligência e nas pesquisas que os fóruns têm apontado como substanciais, porém o varejo das questões mais imediatas deve prevalecer o que lembra o ícone da moradia nos Quatro Conjuntos.

Vitimalismo

Nem todo o vitimalismo dá certo na história brasileira: o supostamente ensaiado de Jânio Quadros em torno das "forças terríveis", nos anos 1960, que o levaram à renúncia, bateu na trave, mas o de Getúlio Vargas, com o suicídio, mais o bilhete e a Carta Testamento com os axiomáticos, "esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém" e "saio da vida para entrar na história", provocaram uma revolta no País, com empastelamento do jornal de Carlos Lacerda Tribuna da Imprensa, ataque a representações americanas e tumulto em todo o País. Na véspera, muitos dos que saíram às ruas para as manifestações estavam como os que agora querem ver a presidente eleita fora do Alvorada por causa das denúncias contra a figura messiânica do presidente da República.
Dilma Rousseff, surfando na imagem da Lava Jato, vai alegar que a sua determinação, apesar das pressões em não interferir nas investigações, teria sido a causa principal do processo de impedimento, justamente alcançando setores da base aliada do PMDB e PP em especial. O fato é que uma das causas do afastamento do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, foi essa, a de que não podia e nem devia, numa época de autonomismos estamentais como o da Polícia Federal, sua subordinada, tentar conter a sua atuação que implicava meio mundo. Há espaço em nossa cultura política, no campo psicossocial, para o melodrama (e alguns sugerem que Dilma, em sua defesa, chore para expor a condição de mulher no arquétipo machista) e outros já insistem numa postura heroica, a da guerrilheira que chegou ao poder. Tudo, enfim, hipóteses e com aposta em desgastes no sistema dominante no decorrer do julgamento e notícias paralelas, com a do indiciamento de Lula e da esposa Maria Letícia.

Folclore

No meio das tensões do bate-boca do julgamento de Dilma Rousseff uma cena de humor e de humanidade: o advogado da presidente afastada, José Eduardo Cardozo, sofreu um acidente ao torcer o pé e quem o atendeu foi o senador Ronaldo Caiado, ortopedista, e um dos mais radicais empenhados no processo. Receita sugerida pelo médico: "Tinha que imobilizar, mas que começaria o tratamento enfaixando pela boca". Quem sabe Che Guevara, quando sugeriu ser duro mas sem desprezar a ternura, estivesse se referindo a humor, esse que mais aproxima do que afasta eventuais contendores.

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