"O Gaeco está para nós como a Lava Jato para o Brasil"




Só descompressão

Se o governador viajou para que o pacote andasse, o projeto bateu na trave. Se a Lei da Ficha Limpa foi considerada como obra de bebum, o que se diria desse instrumento de ajuste, mais um, fiscal do governo?
A ânsia de arrecadar, de qualquer jeito, ainda que correndo riscos como na história da taxação da água, é um sinal de desespero e que anula qualquer perspectiva de racionalidade. Voltar-se para as dimensões do monstro ineficiente e voraz, porque autofágico, analisar-lhe a anatomia e aplicar soluções cirúrgicas para aí sim reduzir custos não se faz. O pesado custo da máquina é olhado como fatalidade filosófica, daí o absurdo de criar fontes de receita que dariam apenas R$ 100 milhões num ano e arrancar recursos de R$ 2 bilhões da Copel e Sanepar com venda de suas ações em dois exercícios nem parece que isso ocorre numa estrutura orçamentária superior a R$ 50 bi, mais de R$ 4 bi mensais. Só a folha do pessoal, sem contar os atrasados de promoções e progressões, a essa altura em mais de R$ 300 milhões, representa todo o mês um aporte de R$ 1,4 bi. Por isso, que o governo paranaense apostava seriamente num édito do governo federal nas negociações sobre as dívidas estaduais que contemplasse o congelamento salarial dos servidores públicos por dois anos. Seria pelo menos uma descompressão diante do enorme sufoco como talvez a viagem de Beto Richa tenha representado para sua comodidade pessoal e de sua família.

Se a medida viesse, o governador se livraria dos ônus desse garrote nos salários dos barnabés e poderia confiar, com maior tranquilidade, na vitória senatorial, durante cujo transcurso ouvirá muito mais do que as lembranças do massacre de 29 de abril e o desdobramento cênico dos numerosos atos de corrupção, que vão da proteção extremada ao Ezequias aos casos tenebrosos da roubalheira fiscal e do afano nas construções escolares, em que se envolveram amigos íntimos e o lendário parente distante Luiz Abi, uma lenda que anda como o Fantasma Voador da história em quadrinhos.

Apostar no Gaeco

O Gaeco está para nós como a Lava Jato para o Brasil. Combater o poder local, e isso na esfera institucional (Judiciário, Ministério Público, Tribunal de Contas), é bem mais complexo, dadas as amarras da sociedade cartorial, o parenteralismo, o conforto das acomodações e da troca de amabilidades, cortesias e, consequentemente, compromissos. Aqui também se repete o que abordamos ontem sobre o peso clânico de famílias que, mesmo quando originarias do pioneirismo, reproduzem valores e processos do feudalismo. A propósito Rui Cirne Lima faz uma analogia, em seus estudos de Teoria Geral do Estado, entre federalismo e feudalismo, o que aliás é mais visível na estrutura constitucional dos "Esteites" do que aqui com aquela incrível disposição de as unidades poderem legislar sobre direito substantivo e processual, o que aqui com o Judiciário que temos seria mais embaraçoso.

Além das operações "Publicano" e "Quadro Negro", que atingem duramente o governo estadual, as investigações em andamento sobre as licitações dos sistemas de transporte coletivo de todo o país e especificamente do Paraná caminham inexoravelmente para aquilo que não se fez no momento adequado: a análise aprofundada do certame promovido pela dupla Beto Richa e seu sucessor Luciano Ducci e que foi orientada pelo atual presidente do Tribunal de Contas, Ivan Bonilha, então procurador do Município.

Protagonismo

Sérgio Moro é no campo judicial o que Neymar representa na seleção olímpica de futebol. Do craque não se admite firula em excesso ou encenações de cai cai. Do magistrado se espera menos protagonismo externo, mais concentração nos autos e não exercícios intelectuais como esse de fazer veemente reprovação das vaias nas Olimpíadas em palestra recente. Não pode da esperança que representa para o país nos efeitos, esses sim de restauração ética e civilizatória, da Lava Jato transformar-se num especialista em generalidades para combater os macunaímas do contexto nacional.

Folclore

Curitiba teve muita expressão em movimentos anticlericais, a pregação do positivismo de Auguste Comte e, nas letras, a transição do parnasianismo ao simbolismo. Quando da fase mais aguda do positivismo a adesão de adeptos era mais ou menos como a dos anos recentes nos cursilhos da cristandade. Numa manhã, o poeta Emílio de Menezes atravessava a Praça Osório quando um positivista do grupo do historiador David Carneiro o saudou com a frase "Vais ao apostolado?". Claro que queria referir-se a um encontro da religião da humanidade ao que o boêmio replicou "Não. Vou para o lado oposto". Um trocadilho exemplar, uma das áreas mais cultuadas pelo poeta imortal.

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