Política Atualizado em 06/08/2016, 23:00
Luiz Geraldo Mazza
"Como estamos em função dos Jogos Olímpicos numa atmosfera do jogo e do lúdico, há agora apostas em torno da votação do impedimento de Dilma"
Qual é a prioridade do governo federal entregue a um interino-uterino? Sinalizar algo pela superação da crise econômica e, é claro, dar sinais nessa direção. Porém, nada avança, tantas são as contradições internas entre o que se deve e o que se pode fazer em função da trama de interesses em conflito. Como há algo também prioritário na consumação do impeachment, tem que pisar em ovos para tudo acomodar e, ao perder o tempo precioso no mínimo de providências viáveis que gerem no público a noção de que as coisas estão mudando bota em risco, até agora um tanto remoto, a votação do impedimento definitivo de Dilma Rousseff.
Evidente que, na medida em que o seu cronograma se estreita para viabilizar-se como o homem providencial para unir o pais e ensaiar a salvação, não avança em qualquer esforço para o controle de gasto público até porque a cultura preexistente favorece estados gastadores em suas relações ambivalentes com a União que não tem lá muita moral a impor padronagem. Esse é um ponto de estrangulamento básico e, que não resolvido, transfere o caos para depois do impeachment de pouco adiantando toda a imagem internacional de Henrique Meirelles, sabidamente insuficiente para sustentar o simulacro de que estamos enfrentando objetivamente o problema em contorcionismos eufemísticos .
Como estamos em função dos Jogos Olímpicos numa atmosfera do jogo e do lúdico, há agora apostas em torno da votação do impedimento de Dilma. No meio desta semana tínhamos 44 fechados com a queda de Dilma, 19 contra, 13 sem declaração (aí há certeza de valorização, afinal parte da malícia indispensável), 5 indecisos. Alguma folga, mas não a que vinha sendo decantada, já que são necessários 54 votos para o kaput. E quinta-feira a prévia da votação do relatório pró-impedimento do senador Antonio Anastasia no placar de 14 a 5. O PT aposta no desgaste na marcha das supostas "reformas", uma das quais de rachar o crânio na questão previdenciária, e ainda no vitimalismo, aquela larota de que a elite não tolera o fato de o povão ter vivido melhor nesses treze anos de uma imaginária revolução igualitária com adensamento da classe média que já está como maracujá de gaveta, como dizem os parnanguaras, com a nova realidade da recessão e do desemprego e, sobretudo, da inflação.
O lubrificante indispensável, o sinal de virada, de reversão de expectativas, até agora não deu sinal de presença. O único fator que se evidenciou foi o da inércia quanto às manifestações de massa como deu para captar na semana passada com a perda de vibração, menos gente nas ruas, e até a valorização de pequenos incidentes como o havido com a atriz Letícia Sabatella ofendida por um membro da burguesia luminosa da praça. Aliás, nesse episódio retratado pelo Tadeu Vaneri no Legislativo, que usou na tribuna os termos chulos da agressão, levou o presidente Ademar Traiano a pleitear a retirada da palavra dos anais sob o fundamento de que seria ofensivo que crianças e adolescentes repetissem a expressão interditada, como se as coisas da Assembleia fossem um ponto referencial de leituras infantis. Isso está mais para o formol do que para o formal. E se a fonte for realmente área de interesse dos nossos jovens pelo que fazem os nossos parlamentares, de um modo geral, eles viajam pelo jurássico. Há na cultura mundial um pudor excessivo pelo palavrão. A despeito do seu esforço Nelson Rodrigues, em que pese a força do talento expresso também em suas peças teatrais, pouco influenciou para mexer com essa interdição. Há exemplos na cultura mundial como em "A prostituta respeitosa", de Jean Paul Sartre, era escrita assim "A p... respeitosa".
Recentemente, tivemos uma discussão semântica, pertinente aos falares nacionais, do uso da expressão "leviana" endereçada por Aécio Neves a Dilma num debate eleitoral. No Nordeste isso equivaleria a chamá-la de quenga quando, na verdade, o tucano pretendia dizer que ela havia sido superficial e precipitada num determinado juízo de valor.
Na Copa do Mundo, além da vaia, a presidente da República ouviu agressão pior, selvagem, boçal dita em coral por parte da multidão, risco a que se expôs nessa semana na abertura dos Jogos Olímpicos o seu substituto interino, mesmo depois de mostrar-se tão empenhado em revelar uma face mais humana e popular com a cafonice de chamar a mídia para vê-lo levar o Michelzinho à escola. Imaginaram De Gaulle, Churchil e Obama fazendo o mesmo?
Curitiba, foco-chave das Diretas Já, tenta repetir o mito com a presença de Dilma Rousseff amanhã no "Circo da Democracia", mais um evento entre tantos que tentarão os últimos esforços de defesa e da denúncia do golpe, certamente o mais judicializado de todos, tantos os fricotes ritualísticos que se acentuarão lá pelo fim do mês, sob o comando, como determina o figurino, do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Ricardo Lewandowski. Depois de amanhã, o presidente do Senado, Renan Calheiros, abre a sessão e passa a cadeira a Lewandowski e haverá a votação prévia denominada "pronúncia do réu", discussão essa que deve se prolongar por mais de 20 horas. Deve reproduzir em outra escala o resultado da aprovação do relatório Anastasia. Façam apostas, senhores, se é que há dúvida sobre o jogo em questão.





