Reação ainda precária
Sinais de reação em meio à crise econômica não são consistentes o suficiente para ensaiar uma reversão no processo, mas criam estímulos de alguma confiança e o governo que se agarra em fio desencapado já tenta contabilizá-los como feito seu: há a melhora no balanço das exportações com as importações, essas contidas ainda no esforço para recuperar a enorme capacidade ociosa dos vários setores da produção. Nesse dias o IBGE mostrou que no semestre houve discreto aumento na produção industrial, o que se dá por quatro meses consecutivos e o crescimento de junho sobre maio alcançou 1,1%.
De outro lado, as vendas de materiais de construção no varejo, item relevantíssimo, obteve três aumentos consecutivos, atingindo 8,5% em julho, segundo a associação nacional do segmento que, de outro lado, fortalece expectativas de melhora no mercado imobiliário, esse um referencial de possível recuperação em área fortemente geradora de emprego. Claro que no acumulado do ano os dois setores ainda marcam retração.
A economia, até por espasmos ou tropismo, reage: mesmo na inércia o desempregado, hoje em escala de dezenas de milhões, tem que se virar para buscar emprego, transportar-se e comprar produtos básicos. A evidência está em nossas estradas e com o movimento de carga inalterado. No concernente à produção industrial tivemos em junho retração na alimentícia (-0,7%), na de celulose e papel (-2%) e de bebidas (-2,6%), mas houve expansão em confecção e vestuário (9,8%), veículos automotores (5,5%), perfumaria e limpeza (4,7%) e metalurgia (4,7%).
Para um governo parado nas decisões mais relevantes, não é pouco e é óbvio que o empresariado argumenta que a saída de Dilma gerou essa situação e que o pior que poderia acontecer seria o retorno da presidente afastada, o que nada tem de científico, mas é rigorosamente político e vinculado à ideologia de classe.
Na cesta básica tivemos alta de junho para julho em Curitiba de 0,9% e no acumulado do primeiro semestre aumento de 7,26%. Ao longo do período deixamos de ser a capital mais inflacionária do país, o que não significa que Michel Temer possa faturar o registro.

Aparência
A aparência pode enganar, mas parece indispensável em meio à crise. Conforme pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas em conjunto com o Serviço de Proteção do Crédito (SPC), as despesas com academias, cosméticos e clínicas de estética foram as menos citadas entre as que possam ser cortadas em cenário de instabilidade econômica. Há uma escola de psicologia denominada fenomenológica assentada no fundamento de que o sujeito é o que parece ser, isso é o que aparenta. Daí, talvez, o empenho dos nossos políticos em tratarem da aparência como dado fundamental, o que irradia autoconfiança, mesmo que isso não passe de forte dissimulação de tormentos irreveláveis.
Segundo esse mesmo estudo, ficou demonstrado que a preferência é reduzir gastos com lazer do que restringir um tipo de consumo que nada tem de supérfluo. Uma referência disso é a constatação no universo dos domicílios pobres verificar-se a presença de artigos de toucador, cosméticos e de higiene. É constatável nos levantamentos da Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar. Um esquerdista doentio, com dor de dente, como dizia Lerner, pode achar tudo isso evidência de "alienação" e com isso ele fica pacificado com si mesmo e confiante na rota da revolução que nos livrará inclusive das parasitoses e das hemorroidas doloridas face ao nirvana que habitaremos.

Censura
Sérgio Moro ouviu na Câmara Federal mais censura do que as já referidas do Judiciário no ato de propagação das medidas de acirramento do combate à corrupção. As mais contundentes vieram justamente de petistas, os que detêm as maiores baixas nas prisões. O fato é que a classe política, de um modo geral, está em mau momento e é difícil escalar um que não esteja envolvido em trutas. O PT, como partido, é o mais degradado porque desde antes de chegar ao poder já revelava desvios comportamentais incompatíveis com sua pregação.
Outra coisa: essa badalação de artistas programada para segunda-feira pode ser um tiro no pé face ao grupo arregimentado em termos de talento e expressão na classe, já que os mais marcantes se alinham como chapas brancas, uma vocação irrefreável dos que curtem a fantasia de que havia em andamento uma "revolução" no país, expressa na nova classe, aquela referida por Milovan Dijilas, no comissariado tupiniquim. .

Folclore
Essa identificação de artistas com a política faz lembrar do "patrulhamento" feito contra Regina Duarte por ela ter feito alarmante observação sobre a natureza do PT e do lulismo. Para muitos, os fatos posteriores, ao longo de treze anos de governo, deram um tom profético àquela alusão em meio a uma campanha eleitoral.

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