LUIZ GERALDO MAZZA
Dois ritmos desiguais
Como nas diástoles e sístoles do corpo humano, há dois ritmos diferenciados neste momento no país: de um lado o governo, imerso em suas contradições e ambições, que não consegue dar um passo à frente, ainda que bafejado por alguns indicadores como o da balança comercial e expectativa de PIB fortalecido; e de outro a dinâmica da Lava Jato que a qualquer momento abarca mais gente tanto de temeristas como de dilmistas. Enquanto, por exemplo, o interino não consegue firmar diretriz segura sobre gastos públicos pelas concessões, que se vê coagido a ceder às unidades federativas e municípios, vai desmantelando qualquer sinal mínimo de austeridade fiscal, a Lava Jato entra de sola na empreiteira Queiroz Galvão. Aliás, o que se faz no Brasil é algo, como se a um só tempo, transformassem as sete irmãs do petróleo em rés de um procedimento criminal, guardadas as devidas proporções.
Essa distonia de cronogramas, até pelos incidentes que vai gerando como o da reeleição de Michel Temer, sem perspectiva de um legado que o apontasse como salvador, põe em risco a ambição imediata o de uma vitória tranquila no impeachment, apesar de aparentemente exauridas as forças do lulopetismo. Atritos de natureza política podem alterar o placar do impeachment que aparentava estar em 44 favoráveis, 19 contrários, 13 sem declaração e 5 indecisos. Como são precisos 54 votos e com fatos novos mexendo com o corpo eleitoral do Senado e Temer não sabendo se prioriza a cassação de Dilma antes a de Eduardo Cunha, aos poucos aquela certeza de que tudo passaria de barbada até pelo grau obtido de arregimentação em favor do interino começa a ser minada e entre outras coisas, muito caras aos brasileiros, na força do vitimalismo. Em 1954 muitos que desejavam a prisão de Getúlio Vargas na véspera do suicídio estavam entre os manifestantes arrasados e querendo vindita com o martírio presidencial.
A Lava Jato conserva o que há de virtuoso no momento pela precisão e clareza dos julgados e a pressão sobre indiciados, como no casal marqueteiro Mônica Moura e João Santana, e o ritmo governamental para sair da crise é precário, posto que ajudado por alguns fatores externos. Assim a única certeza é a do predomínio do fator judicial, fato raramente vivido no Brasil.
Uber e táxis na rua
Ontem foi dia de desfiles dos motoristas do Uber, que desistiram de ir à Câmara Municipal para se queixar das multas e perseguições sofridas, e dos táxis, que levaram à Assembleia Legislativa o dossiê que haviam encaminhado a Sérgio Moro e às autoridades judiciárias e apoiando o projeto do deputado Paranhos que proíbe o aplicativo no Paraná. Ora, a confusão é mundial e de tal ordem que na China um grupo local tenta comprar os direitos do Uber. Assunto desse porte parece transbordar fronteiras municipais e regionais. Por sinal que o Uber no Brasil já tem dois concorrentes.
Neblina
Ecovia desenvolve uma campanha para aumentar os cuidados dos motoristas na neblina e para tanto reúne dados estatísticos em torno de sinistros. Percebe-se que alertamentos da sinalização, vertical ou horizontal, são insuficientes.
Milícias
Quando se falou que o Comando Vermelho e o Partido do Comando da Capital atuavam na guerrilha dos presídios, como se dá agora em Natal, aqui em Curitiba, as autoridades da área negaram uma evidência que se tornaria viva na sequência de rebeliões em penitenciárias e obrigaria a transferência do Depen para a Segurança, o que reduziu as sublevações, mas não as extinguiu. Dá-se o mesmo agora com as milícias apontadas pelo Gaeco como plenamente operantes em Curitiba e região metropolitana no tráfico e comércio de armas: expedidos nove mandados judiciais de busca e apreensão e prisão de um militar, que supostamente a comanda junto com empresário do setor de segurança. Mandados expedidos para Curitiba, Almirante Tamandaré, Colombo, Itaperuçu dão ideia da extensão geográfica da operação.
Folclore
Mário de Abreu, um dos maiores cirurgiões do Brasil, mestre de tantas vocações, além do seu conhecimento médico, era um humanista e de cultura enciclopédica. Cansei de vê-lo, aos domingos, na Boca Maldita ao lado de seus discípulos falando sobre temas variados e essa amplitude de conhecimento foi alvo de um comentário sarcástico do patologista, ex-aluno, o iratiense Atis Quadros Silva: "O doutor Mário só porque opera tudo, pode também escalar o time do Água Verde!".





